sábado, 1 de agosto de 2020

O Mineiro.

O MINEIRO
Mineiro, o cidadão que habita o Estado de Minas Gerais, tem algumas peculiaridades muito interessantes e um modo próprio de ver a vida transformando-a em “causos”.
Vou contar aqui, não é a primeira vez, um desses “causos” acontecido com meu amigo Eduardo. 
Eu acho muito bom e toda vez que estou com a testa franzida de preocupação, lembro-me dele e imediatamente transformo o semblante sério em sorriso.
Proprietário de uma bela pousada campestre contou-me o Edu que resolveu tirar umas férias de uma semana indo para o litoral descansar na praia, tomar banho de mar, água de coco e umas cervejinhas pois ninguém é de ferro. 
Preparou a “tralha” colocou no porta-malas do carro e já ia saindo quando se lembrou de recomendar à Conceição, sua ajudante na lida na pousada, que não se esquecesse de aguar as couves a “menina dos olhos” da horta.
- Não esquece de aguar as couves!!!!!!
- Seu Eduardo o senhor tá levando seu calção de praia?
Cheio de planos partiu em seu Opala novinho, rumo ao Rio de Janeiro.
Céu azul, vento fresco lá foi o Edu.
Chegou ao Rio anoitecendo. No alto da serra presenciou um belo por do sol e dirigiu-se ao hotel em Copacabana.
Desceu, sentou-se num daqueles tradicionais “bar e restaurante” do Calçadão e pediu um chope. 
De repente, virou o tempo. O vento sudoeste chegou com tudo. Ventania e chuva obrigaram-no a entrar para a parte interna do restaurante.
A chuva não parou. Segunda, terça, quarta dentro do hotel sem poder usufruir das maravilhas da cidade e de suas praias. Chovia no Brasil inteiro principalmente em Minas.
Decepcionado Edu resolveu antecipar seu retorno.
- Chuva eu pego em Minas na minha roça!
Logo chegou na pousada e a Conceição veio recebe-lo com guarda chuva, muito preocupada com a recomendação do Eduardo, justificou-se:
- “Seu Eduardo a marvada chuva num deu trégua pra eu aguar as couve!”
01/08/2020
Pedro Parente



quarta-feira, 29 de julho de 2020

EVIDÊNCIA

EVIDÊNCIA
Nos anos 90, já adaptado a São João del-Rei vindo do Rio de Janeiro e desfrutando de uma vida bem sucedida financeiramente, era comum juntamente com meu amigo Rici, darmos um passeio pela Colônia na Estrada Velha das Águas Santas.
Ali existia um casal de oriundos da Itália que numa chácara com árvores frondosas, serviam almoço delicioso complementado por um doce de leite especial que se tornou tradicional.
Enfeitiçado por aquele lugar, sempre chegava até lá.
Na volta, sem bafômetro, inexistente naquela época, seguia de carro pela Estrada Velha, ainda de terra e muito bucólica. Na primavera transformava-se em um túnel colorido por flores da época, principalmente ipês amarelos e buganvílias.
Apaixonei-me por um determinado terreno ali. Por força do destino, vim a comprá-lo e transformei-o na casa onde resido. 
Comecei a construção pela área de lazer, pois não sabemos se amanhã estaremos vivos e queria dividir minha alegria com os amigos que eram muitos e eu os amava.
Isso consegui pois ainda estava com o posto de gasolina em plena atividade não me faltando capital para a obra.
Na área que adquiri veio junto um verdadeiro tesouro, um poço com três nascentes. Mantém um estoque quase permanente de setenta mil litros de água. Essa água abastece toda instalação hidráulica. Não existia abastecimento regular pela prefeitura, pois era terreno não urbano
Montei uma bomba d’água para abastecer a piscina e os outros cômodos. Tomei a precaução de além da minha cerca, isolei com arame farpado a bomba e os tubos que faziam a distribuição, pois meu vizinho criava gado leiteiro e era constante suas vacas romperem a cerca atrás de capim fresco.
Certo dia, com a família toda em festa num final de semana, faltou água. Fui procurar e verifiquei que uma das vacas havia rompido as duas cercas e quebrado o tubo de PVC que abastecia nosso balneário jorrando agua à distância.
Chamei o meu bom vizinho Valdemar e mostrei a ele o estrago, pedindo-lhe que fizesse o reparo  no cano pra mim.
Respeitosamente perguntou-me se eu tinha certeza que fora obra das suas vacas.
Me acompanhava naquele instante, meu sobrinho professor de física e química em Juiz de Fora de formação erudita e de esmerado vocabulário. Entrou na conversa cerimoniosamente e apontado ao sitiante um monte de fezes da vaca deixado no local, falou:
- Eis aqui a evidência!
O homenzinho com um olhar de quem não entendeu nada, cutucou o companheiro dele e eu pude ouvir ele cochichando:
- “NÓS NUM TEM VACA CHAMADA VIDÊNCIA!”
Consertou as cercas e a festa continuou com ele chapando uma talagada da “marvada.”
Foi um bom fim de semana!
29/07/2020
Pedro Parente

sexta-feira, 24 de julho de 2020

MARINHEIRO ESCANDINAVO MUTILADO DE GUERRA

MARINHEIRO ESCANDINAVO MUTILADO DE GUERRA.

Nos saraus de fins de semana, Dr. Evaristo de Moraes Filho proeminente jurisconsulto famoso no Brasil, inclusive foi um dos que fez a defesa do Color em seu impeachment, convidou Flávio e Violeta para irem a seu apartamento suntuoso na praia do Flamengo para uma noite de vinhos e queijos, recomendou que levassem a “turma do violão”.
Assim foi que, no dia marcado, sábado à noite, lá fomos nós! Eu, inclusive, na “turma do violão”. Flávio não me deixava para trás.
Fomos: Flávio, Violeta, Turquinho, Kate, Thompson, eu e Bené, este um cearense de sotaque carregado bom de violão e de prosa.
Haviam mais convidados do Evaristo pessoas simpáticas e bem educadas apreciadoras do cancioneiro popular brasileiro que Violeta dignificava com sua voz e molejo inigualáveis.
Em um canto da sala uma mesa redonda lotada de com fatias generosas dos melhores queijos nacionais e internacionais. Compondo a decoração da mesa, imagens de santos católicos entalhados na madeira.
Muito chique!
Tive até receio de me aproximar, pois não sabia se os queijos eram para nós ou para os santos, numa espécie de oferenda.
Acho que passou a mesma coisa pela cabeça do Bené.
Já lá pelo terceiro ou quarto uísque, Bené perdeu a timidez com um copo em uma das mãos e violão na outra não sabia o que fazer para tocar, pois precisava de ambas as mãos livres.
Dirigiu-se ao dono da casa com aquele sotaque carregado e disse:
- Ó doutor! Que os santos perdoem meu sacrilégio, mas posso colocar meu copo de bebida alcoólica na mesa?
O consentimento do Evaristo veio entre gargalhadas!
Ambiente de muita alegria, todos felizes as conversas já em tom maior acompanhando o grau da bebida, Flávio combinou comigo que iria se caracterizar de marinheiro escandinavo mutilado de guerra que estava recolhendo fundos para sobreviver sem um dos braços.
Violeta acompanhou-o. Arrumaram um paletó do Evaristo, um guarda chuva fechado introduzido pela manga do paletó substituindo o braço perdido na guerra. Uma vassoura apoiada no queijo ocupava o lugar de um violino e uma varinha na mão direita que seria o arco de tocar o instrumento.
Pedi silêncio aos comensais e anunciei a presença do marinheiro que de marujo só tinha o boné.
O “marinheiro” reverenciou a plateia naquele gesto tradicional, curvando o tronco para a frente.
Começou a apresentação!
Com passos claudicantes e muito lentos, o “marinheiro” foi tocando seu instrumento, passando a varinha no cabo da vassoura apoiado pelo guarda-chuva dentro da manga do paletó do braço esquerdo.
Bené executava a Marcha Fúnebre!
As pessoas com cara de paisagem, não sabiam ao certo do que se tratava.
Encerrada a apresentação, o marujo quis saudar e agradecer aos presentes com um aceno de mão direita, porém, ela segurava o arco do suposto violino.
Todos atentos e em silêncio.
O “marinheiro” sem saber o que fazer com o arco, de repente, da braguilha de sua calça vai saindo uma coisa com movimento próprio.
Ninguém piscava!
Eis que surge por inteiro o dedo do “marujo” que o Flávio havia colocado por dentro da calça em posição estratégica, segura o arco e ele pode então cumprimentar a todos entusiasticamente.
Aí o mundo veio a baixo. Todos descontraíram e adoraram o desfecho.
Todos à mesa para devorar os queijos e beber aqueles vinhos deliciosos. Por pouco o Bené não comeu um Santo.
Grande noite!
Saímos de lá com os alvores do dia.
24/07/20
Pedro Parente





terça-feira, 21 de julho de 2020

TRIBUTO AO MEU BOM AMIGO FLÁVIO


TRIBUTO AO MEU BOM AMIGO FLÁVIO.
No ano de 1960, deixei Belém do Pará onde morava com minha família e vim disputar o Campeonato Brasileiro de Remo na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Meus companheiros da delegação voltaram, menos eu.
Seduzido pelas maravilhas do Rio, resolvi ficar. Sozinho, indeciso, com a alma partida, resisti e resolvi fazer minha vida por ali.
Sem formação acadêmica e com pouquíssimo dinheiro, me aventurei com muita dificuldade.
Terminado o campeonato, fui morar com minha tia Emília no Edifício dos Jornalistas na confluência da Ataulfo de Paiva com hoje Borges de Medeiros, anteriormente, Epitácio Pessoa que dava a volta em toda a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Muito tímido, fui fazendo amizade com a turma do prédio em que morava e em pouco tempo tornei-me um deles...
Consegui um emprego de “office boy”, ou continuo no Centro.
O salário dava para pagar o lotação, almoço e no fim de semana tomar uma cerveja e um macarrão a bolonhesa no Restaurante Paisano.
Vida modesta, porém, deslumbrante!
Não cansava de admirar o Rio. Me identifiquei e me apaixonei por ele sem restrições.
Nesse clima de euforia. Explodindo de energia própria dos jovens não sentia a vida passar.
Foi assim que me enturmei com o pessoal da rede de vôlei.
Próximo ao canal do Jardim de Alah que deságua na praia, lá estava a rede que possuía matricula na Prefeitura de número 1 (um).
Turma heterogênea e de várias matizes composta a maioria por homens adultos, mais velhos e por isso mesmo, impunha respeito.
Foi aí que tive a felicidade de conhecer o incrível Flávio (Flávio Carneiro da Cunha) carioca da gema.
Tornei-me seu admirador.
Sou seu fã, filho, amigo, irmão ou todos esses qualificativos juntos.
A empatia foi recíproca.
O Flávio era uma pessoa cativante. Em qualquer lugar que estivesse havia sempre uma roda de pessoas em sua volta. As rizadas eram frequentes, porque além de contar histórias, as interpretava com maestria de um profissional de teatro.
Quando faltava ao vôlei, a rede ficava sem graça.
Do trajeto de sua casa na Visconde de Pirajá ao lado do Bar do Veloso, onde se reunia a turma do Tom, Vinícius, Chico & Cia até encontrar a turma na praia, observava alguns detalhes ou cacoetes dos tipos que caminhavam naquela orla marítima e fazia uma apresentação cênica para nossa plateia enfeitiçada. Não havia quem não gostasse.
Parecia um homem comum, mas não era!
Educação refinada, discreto, firmeza de caráter, de personalidade inflexível, guerreiro que matava um leão por dia na sua lida pelo pão de cada dia e disso fui testemunha várias vezes.
Usei do seu aval para comprar passagem a prestação em visita à minha família em Belém. Sempre o fez prazerosamente.
Discreto, tanto que do seu primeiro casamento, nunca soube o nome da ex, pois só se referia a ela como falecida.
Não abria mão da sua condição de pai das filhas do primeiro matrimônio e quando houve o casamento de uma delas, o convite de casamento foi muito discutido, não sei direito porque, porém acho que não queriam colocar o nome dele no convite ou vice versa, não queria que colocassem. Não lembro direito.
Boêmio abstêmio, passava a noite apreciando a Violeta, sua mulher cantando e ele tomando ou Coca ou café com sua conversa cativante.
Violeta era excelente cantora da Rádio Nacional quando se conheceram. Ela sambista de categoria invejável. Muito cortejada, Flávio, ciumento interrompeu sua brilhante carreira. Menina de 13 anos encantou o Maestro Carlos Gomes em uma excursão a Manaus e incentivou-a que viesse para o Rio onde fez grande sucesso interpretando Ary Barroso, Assis Valente, Luís Peixoto e outros tantos da época.
Minha empatia maior com Flávio foi sem dúvida a música. Ele me ensinou muito do cancioneiro brasileiro pois era profundo conhecedor da arte tendo sido Diretor Musical da Rádio Roquete Pinto do Rio de Janeiro que tocava somente música de câmera.
Era costume, nos finais de semana, Violeta ser convidada para cantar em casas e apartamentos de pessoas importantes com intermediação do Flávio. Ela era acompanhada pelo violão do Cesar Farias (pai do Paulinho da Viola), o Jonas do cavaquinho ambos do conjunto Época de Ouro do Jacó do Bandolim, Bené um cearense ótimo violonista e o Thompson irmão do Nerthan que vinham a ser primos do Flávio. Oriundos da Paraíba tinham origem nobre do Barão de Abiaí - Silvino Elvídio Carneiro da Cunha.
Flávio me introduziu ao grupo conhecendo meu amor pela seresta e meu jeito de cantar. Para que a Violeta descansasse a turma dava uma brecha e eu vocalizava meu tímido recado no meio daquelas feras.
Devo muito a ele, por não ter família era vulnerável às maldições da cidade grande como vicio e a prostituição. Flávio me pôs a seu lado e me levava sempre para ambientes familiares.
Era uma personalidade fantástica. Não era de contar fatos amorais e libidinosos que é comum nas conversas entre homens. Não. Raramente falava palavrão, preferia usar o castiço.
De formação acadêmica, houve um fato em sua vida que o entristeceu à época.
Louco pelo Botafogo passou a treinar como goleiro e conseguiu sucesso sendo observado pelo treinador para ser titular do seu time querido, porém seu pai severo não admitiu. Disse que em sua casa somente quem tivesse diploma seria aceito.
Desiludido Flávio deixou seu sonho de lado e dedicou-se ao estudo de Direito.
Formou-se. Recebeu o diploma entregou ao seu pai e nunca exerceu a profissão.
Preocupava-se com todos.
Eu tinha um amigo vindo de Belém que passou a frequentar a rede de vôlei e também se encantou pelo Flávio que enquanto não arrumou um emprego para o Rubinho não sossegou.
Entre muitas coisas da minha vida é responsável pelo meu casamento quando construí uma família formidável.
Lembro-me bem dele falando um ditado popular “Aquele é amigo de emprestar dinheiro!”
Poderia passar o resto do ano, falando com alegria desse meu adorado amigo Flávio que infelizmente não está mais aqui e levou consigo o maior pedaço do meu coração. Lembro-me dele diariamente e tem dias que a lembrança é durante o dia todo.
Tenho esperança em reencontrá-lo e dar-lhe um grande abraço.
Para não ser cansativo, encerro por aqui exaltando as virtudes desse amigo inesquecível.
Para Renata sua filha espero ter matado um pouco de sua curiosidade sobre seu pai a quem tive o privilégio de compartilhar grandes momentos de nossas vidas.
Pode se honrar dele e também sua mãe que participei da sua luta quando conseguimos aposentá-la.
Um grande abraço!
21/07/20
Pedro Parente








quinta-feira, 16 de julho de 2020

SURPRESA

SURPRESA
A clausura que nos foi imposta devido a tal pandemia, nos impõe uma rotina monótona, nada de novo acontece.
Sobe escada, desce escada, vai a cozinha come alguma coisa dali vai ao banheiro desperdiçar o que consumiu, computador, almoço e mais nada. Nada mesmo!
Entra a noite já exausto de nada fazer e sem ligar televisão que abdiquei há muito tempo, depois que a imprensa parcial e tendenciosa só imprime o que lhe interessa e dá retorno financeiro, me distraio nos jogos de paciência e palavras cruzadas.
Como alternativa para distrair o lerdo raciocínio faço uma incursão nos sites de novidades chinesas que oferecem um bando de bugigangas a preços excessivamente baratos. O prazo de entrega é de no máximo 3 meses, se não chegar, compra novamente e assim vai.
Um dos privilégios da velhice é você não ter que prestar contas a ninguém onde você gasta seus trocados além da farmácia, é claro!
Não desperta mais ciúmes, então se tiver parceira, ela não se importa, pois tem certeza que não é na orgia com outras mulheres que o dinheiro da aposentadoria está indo embora.
Com toda essa liberdade, me tonei um perdulário.
Dias atrás comprei um celular baratinho. Quando chegou percebi que tinha comprado um equipamento acho que chamam chapinha para alisar cabelo. Faz parte da senilidade.
Vou assinando todo manifesto que se apresenta, pesquisa, sorteio, promoções e etc...
Hoje tocou o interfone e a pessoa falou que era uma entrega.
A entrega era para mim. Não entendi! Não comprei nada para ser entregue com tanta urgência.
Desci para ver.
Uma maravilhosa máquina de café expresso francesa com catorze capsulas de café expresso.
Lembrei-me de que o Café 3 Corações há uns três dias fez uma pesquisa e pediu meu endereço. CPF, minha identificação completa. Não era sorteio. Na internet também se encontra gente séria.
Devido ao meu desprendimento irresponsável, fui distinguido com essa maravilha da modernidade.
Liguei a máquina com carinho. Coloquei um refil e degustei o delicioso café. Não sabia que tinha que trocar a capsula. Só percebi quando tomei o último de uma série de cinco ou seis.
Era uma água quente e turva. Café não tinha mais nem o cheiro.
Obrigado ao CAFÉ 3 CORAÇÕES. Conquistou minha fidelidade ad perpetuam!

16/07/2020
Pedro Parente
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segunda-feira, 13 de julho de 2020

MICO


MICO
Nesses tempos de pandemia e reclusão imposta pelas autoridades sanitárias, a rotina em casa da sala para a cozinha vai nos levando a um cansaço mental deixando-nos meio lerdos, tanto de movimentos quanto de raciocínio.
Pelo menos é o que tem acontecido comigo. Estou meio sorumbático e desatento.
Distraído, envolvidos em pensamentos melancólicos sentado a sala, assustei-me com o toque do interfone.
Apressei-me em abrir o portão com o controle remoto para um carro preto bonito dirigido por uma mulher loura.
Esperei que estacionasse para atende-la.
Desceu do carro uma moça loura, de máscara, óculos e uma bandeja nas mãos coberta por um pano de prato.
Olhei aquilo e imaginei que a minha mulher tivesse encomendado alguma iguaria para o lanche da tarde.
Salivei!
Entretanto fiquei encucado!
Esse confinamento está botando as pessoas ansiosas devido a incerteza do futuro e a queda de rendimento pecuniário de todos!
Achei louvável! Uma moça aparentemente bem situada com porte de gente de fino trato se sujeitando a vender salgados tipo delivery.
Dirigiu-se em minha direção e eu sem saber o que fazer com uma das mãos indiquei o caminho onde se encontrava a patroa.
Sem dizer nada ela mudou de rumo e dirigiu-se para o espaço que indiquei.
Fui surpreendido pela gargalhada das duas.
Imaginei: são intimas!
Apressei-me para ver de que se tratava.
Sem máscara e sem óculos, pude reconhecer, minha querida filha Lia com um belo tabuleiro de pizza.
Infelizmente! Sem abraço amplifiquei o coro das risadas!
Paguei um tremendo mico!
13/07/2020
Pedro Parente




sexta-feira, 10 de julho de 2020

INQUIETANTE

INQUIETANTE
De repente os estadunidenses começaram uma corrida espacial a caminho do planeta Marte.
Será por que?
Penso que devido a alta tecnologia espacial que eles possuem, sabem muito mais do que nós míseros mortais, o que está para acontecer com nosso planeta.
Primeiro fizeram uma romântica viagem ao nosso satélite natural a Lua.
Muito romântica, tanto que para muitos, nunca existiu.
Lembro-me que estava no meio da estrada de terra Belém a Brasília, num boteco de pau a pique, porém já com um TV preto e branco, quando o Armstrong pisou no solo lunar com aqueles saltos lentos e suaves devido a falta de gravidade, quando um homem forte, chapeludo encostado no balcão trazendo um cinto atracado na cintura e exibindo um bruto revólver pendurado no coldre, falou:
- “Lua nada sô! Pensa que nóis é bobo! Isso é lá na terra dos camelo onde num tem água!”
Mudo estava, mudo fiquei! Quando olhou pra mim, eu com as pernas tremendo e com cara de paisagem, meneei a cabeça em sinal positivo.
Tomei mais uma e sai de fininho.
Não sei o que vai acontecer! 
As notícias são preocupantes!
Será que as profecias estão se tornando fato real?
Gigantesco meteoro em rota de colisão com a Terra; pelo menos 15 vulcões adormecidos entraram em erupção; nuvem de poeira atravessando o Atlântico; pandemia com efeito devastador sobre humanos e já se fala em pandemia de pneumonia com efeitos mais perversos do que o do Corona; nuvens de gafanhotos destruindo plantações no nosso continente; sexo desordenado entre iguais com teoria que prevê o desaparecimento da espécie por falta de natalícios; a fome dizimando exército de famintos pelo mando afora numa proporção alarmante...
Não tenho dúvida que algo estranho está acontecendo no nosso planeta!
Os tomadores de conta do mundo e que vivem da guerra, já têm o diagnóstico.
O pior é que nem se abraçar para despedir, podemos!
REQUIESCAT IN PACE!

10/07/20
Pedro Parente




sábado, 27 de junho de 2020

REFLEXÕES


REFLEXÕES.
No atual confinamento, sem muitas opções dentro de casa, a não ser visitas mais frequentes a cozinha num exercício mórbido para aumentar a circunferência abdominal, me ponho a pensar transportando algumas reflexões para o papel a quatro mãos com minha solidão.
Apesar da monotonia os dias passam céleres como se os ponteiros do relógio virassem pás de ventilador.
Hoje é sábado.
Não percebo mais a chegada dele pois acabaram-se as sextas feiras dia consagrado ao deus Baco protetor dos boêmios embriagados pela volúpia do prazer da bebida, do amor e da alegria aos quais me incluo.
Com minha idade provecta e ameaçado por uma pandemia devastadora, meu futuro é cada dia mais o presente, isto é, meu futuro é hoje pois a areia da parte superior da minha ampulheta, está se esgotando.
Peço licença aos meus amigos para dividir seus ombros e repousar minha cabeça num abraço conivente de tempos felizes vividos em suas companhias.
Hoje faz parte da minha rotina, antes do almoço junto com minha amiga inseparável, sorvê-la lentamente em “pequenas dozes repetidas vezes” como dizia meu amigo Carlinhos Aguiar.
Vou caminhando consciente e resignadamente rumo ao cadafalso inevitável pelos “morituri”.
Ates, porém, dedico a vocês um brinde com a taça da minha companheira neste meu ritual diário.
Tim tim!
27/06/2020
Pedro Parente

quarta-feira, 24 de junho de 2020

FRAGILIDADE

FRAGILIDADE
Numa dessas manhãs geladas com o sol ainda tímido, aqui onde moro no arrabalde da cidade, meu filho guiado pelo ganido frágil de cachorro novo, foi até a rua e debaixo de uma touceira de capim, encontrou dois filhotes de pouca idade.
Assustados, molhados pelo orvalho, tremendo de frio com olhar de súplica, foram recolhidos pela piedade do Pedro.
Entrou em casa com os bichinhos no colo, agasalhando-os com sua blusa e os olhos cheios d’água.
Deu-lhes de comer e beber, enxugou-os e cobriu-os com uma mantinha de lã.
Lindos os animaizinhos!
O cão é um animal diferente, reconhece imediatamente a quem lhe faz bem. Aqui não foi diferente. Em recíproca, todos da casa ficaram embevecidos com a singeleza e a simpatia dos bichinhos.
Problema!
Tenho duas cadelas. Opção pelas fêmeas porque não abandonam a casa. Os machos, se sentem o cheiro de uma cadela no cio, somem.
A mais velha está cega, diabética chegando ao final.
Não tenho como criar os recém chegados. De coração partido e com muita dificuldade encontrei um lar para uma delas, mas ficou a outra.
Pedro teve que viajar e sabendo que iriamos doar a pequenina, despediu-se aos prantos.
Hoje estou pesaroso! Arrumei um lar para a outra.
Fica a tristeza por perde-la, mas a certeza de que não sofrerá maus tratos.
Que Deus tenha piedade daquele que cometeu a covardia contra essas criaturas indefesas.
VIVA SÃO JOÃO!
24/06/2020
Pedro Parente


domingo, 21 de junho de 2020

DIGNIDADE

DIGNIDADE
Em 1981 arrendei um Posto de Gasolina para administrar. É uma prática comum nas empresas de petróleo, quando sentem que o administrador está desmotivado, passar para outro sem prejuízo do fundo de negócio.
No meu caso peguei o Posto vendendo 80 mil litros de combustível e consegui levar até os 300 mil/mês. Gostei do trabalho que se refletiu no sucesso.
Oriundo de fábricas de tecidos e time de futebol me sentia muito bem lidando com pessoas das mais diferentes personalidades. Por esses lugares que passei fiz grande amigos e se deixei algum inimigo, desconheço. Tanto que nos 14 anos no comando do Posto, não tive nenhuma reclamação trabalhista contra a firma.
No Posto não foi diferente é um emprego de alta rotatividade. Normalmente jovens iniciando a vida. Logo em seguida arranjam serviço melhor.
Entre os funcionários hoje quero destacar um pelo fato que aconteceu.
Vindo do sertão pernambucano, interiorzão brabo me apresentaram um cidadão chamado Antônio que necessitava de emprego pois havia constituído família aqui na cidade.
Era um homem forte, embrutecido pelas intempéries daquela terra seca. Mãos calejadas e pele sulcada na face aparentando idade além da que tinha.
Tenho admiração por pessoas daquela região. A maioria tem caráter íntegro. Alguns degeneram.
Coloquei-o como vigia.
Numa madrugada do mês de julho, num daqueles invernos rigorosos, tive necessidade de sair de madrugada para ir a Texaco em Betim.
Quando cheguei no Posto para pegar meu carro, o pobre coitado estava embrulhado da cabeça aos pés na pista e não me viu sair.
Quando voltei me deram a notícia de que ele, com vergonha de não ter me visto sair, não voltaria mais ao trabalho.
Fiquei penalizado e incomodado. Pedi que o gerente fosse à sua casa para convencê-lo.
Não adiantou, mandou pedir desculpa e que não tinha coragem de olhar na minha cara.
Tive que mandar seu acerto de contas em sua casa.
Lamentável, perdi um funcionário de caráter.
21/06/2020
Pedro Parente

sábado, 20 de junho de 2020

AMIGO ALBERTO

AMIGO ALBERTO Hoje abraçado às minhas duas companheiras cachaça e solidão, resolvi voltar há tempos passados. Pus pra tocar músicas de outrora com Roberto Silva, Nelson Gonçalves, Altemar e outros fantásticos da velha guarda. Não pude deixar de lembrar um grande amigo seresteiro exímio tocador de violão que se chamava Alberto, ou chama-se, pois infelizmente perdi o contato com ele há muitos anos. Gostaria de abraça-lo novamente e brindá-lo com um lá menor e ouvi-lo dedilhar seu pinho com a maestria de sempre. Quando me acompanhava nas minhas cantorias boêmias, me entusiasmava fazendo eu cantar com o coração, tal era a maneira que me agradava enaltecendo minha voz. Ele, por sua vez, ficava emocionado e esmerava-se nos acordes. Grande tocador de violão! Éramos companheiros de serviço. Faturistas no Mercado São Sebastião na Av Brasil – RJ. Pegávamos às 7h e parávamos às 16h. Uma noite, ao sairmos duma comemoração de final de ano oferecida pela empresa, fomos parar no Bar das Pombas lá na Muda – Tijuca. Barzinho bacaninha e aconchegante com uma cascata dentro do bar. Não tinha ninguém nas mesas. Somente um negro de terno branco com violão à mão conversava com o balconista iluminado por uma luz difusa às suas costas. Já estávamos calibrados! Embalado pelo som da cascata e os acordes do Alberto, abri a voz! O negro, que mais parecia uma estátua de ébano, aproximou-se humildemente e pediu para participar com seu violão em dupla com o Alberto. Boêmio é um tipo diferente. Todos são solidários. Com grande alegria o receemos com carinho. Fez uma dupla com o Alberto inesquecível. Quando o acompanhamento é bom as músicas vão surgindo em borbotões. A noite avançando não tínhamos a menor intenção de parar, porém teríamos que pegar o último lotação da noite e no dia seguinte estar às 7h no serviço. Ao despedirmos quis encontrar novamente com aquela figura sensacional e na conversa perguntei seu nome e como encontrá-lo. Para surpresa minha passamos a noite na companhia de Synval Silva que acompanhou e compôs várias músicas para Carmem Miranda. Minhas pernas tremeram! 20/06/2020 Pedro Parente

segunda-feira, 15 de junho de 2020

SARAU DA PANDEMIA

SARAU DA PANDEMIA
Ao meu amigo, irmão e companheiro Cláudio Lopes.
Nestes dias de pandemia e clausura nos reunimos Cláudio, Luiz e eu aqui em casa como se fôssemos pássaros fugidos da gaiola.
Iniciamos como três senhores comportados obedecendo o ritual imposto pela OMS Organização Mundial de Saúde. Distanciamento, máscara e outros adereços mais.
Eu e Luiz optamos pelo tradicional vinho lembrando nossas origens da “Bota”. O Cláudio trouxe sua cerveja pois tem preferência pela mais leve comunicando que seu “alvará” seria somente até as 16h.
Até o término da primeira garrafa, foram mantidas todas as formalidades. Pela metade da segunda a máscara já estava protegendo a nuca e o distanciamento parecia ter ido pro brejo. Tudo indicava que a confraternização exigiria um grande tríplice abraço fraternal.
Inexplicavelmente mantivemos a distância!
Numa explosão de alegria viramos um bando de maritacas, todos falando ao mesmo tempo e quem falasse mais alto, ficava com a palavra.
Justificável! Mais de três meses conversando em monólogo com o computador;
Velhos amigos, velhas histórias! 
Deixamos os momentos tristes de lado e nos atiramos às lembranças de momentos felizes e alegres! Foi quando o Luiz Casano se lembrou de um almoço em Belo Horizonte num restaurante especialista em carnes exóticas. 
Para nós era fato corriqueiro comer carne de animais silvestres, pois nossos pais tinham o hobby de caçar. Não era proibido e era um hábito vindo de nossos ancestrais. Como consumidores conhecíamos a anatomia e o sabor das carnes desses animais. Nossa preferida é a carne da paca.
Fomos salivando a manhã inteira pensando em saciar a vontade com uma bela paca.
O restaurante muito aconchegante e bucólico com mesas espalhadas sob árvores frondosas e uma parte coberta devassada e muito arejada. Lugar ideal para nosso almoço que nunca demorava menos de quatro horas.
Os garçons numa correria disputavam os pedidos dos fregueses e aos berros informavam ao homem do caixa.
Em cinco minutos já havíamos feito nosso pedido e o garçom gritou:
- Sai uma paca, duas pingas e uma Brahma!
O prato veio muito bem servido e saboroso, porém nos entreolhamos e falamos em uníssono: 
- Isto não é paca é coelho!
Como determina o manual dos boêmios: “o bom cabrito não berra.”
Chamei um outro garçom que estava mais próximo e pedi:
- Traz outro coelho!
O garçom que não sabia de nada, inocentemente berrou o pedido para o homem do caixa:
- Sai mais um coelho!
Aí o tempo fechou entre os dois garçons. O primeiro que havia servido a “paca” um prato muito mais caro e por tanto representava uma comissão maior, veio voando pra cima daquele último.
- Eles comeram foi paca e não coelho! 
O bate boca esquentou e para acabar com a discussão pedimos que servissem mais uma paca.
MAS QUE ERA COELHO ERA!
Concluímos nosso convescote com o Cláudio, com seu alvará já estourado em mais de quatro horas, ao violão cantando velhas canções italianas na voz do nosso Caruso - Luigi!
Detonamos cinco garrafas de um bom vinho Chileno em homenagem também ao Deus Baco!
Já mais calmos e tontos, nos entregamos a Morfeu.
15/06/2020
 
Pedro Parente
 




quinta-feira, 11 de junho de 2020

SONHO

SONHO
Hoje acordei cheirando carne queimada de churrasco tal intensidade do meu sonho.
Imensas peças de carne gorda. Contrafilés, alcatras, maçãs do peito e outras preciosidades.
Grande festa!
A turma do Morro da Forca estava toda! Mortos, vivos e vivos mortos.
Confraternizei-me com todos.
As esposas na cozinha e os convidados chegando a movimentação era intensa.
Autoridades estiveram presentes até meus amigos Lalado, Juarez, D’Ângelo, Alemão, Marcinho, Antônio José e muitos outros.
A festa foi intensa que durou a noite inteira.
A casa era na subida do morro próxima ao “Militrinta”.
Tive que me desdobrar em dois ambientes. Hora faltava carvão, outra hora a carne acabava, o fogo sumia ou crescia.
Exausto tentando atender a todos satisfatoriamente, sentei-me e tentei comer um pedaço de churrasco, quando de repente, me cutucaram no ombro.
Virei-me e deparei com a figura do nosso saudoso “Nonô Baixinho”. Figura simpática.
O único sapateiro que conheci que botava meia-sola em tênis e com seu 1 metro de altura desfilava nas procissões de semana santa caracterizado de “Centurião Romano!”. Nos bares no meio da batucada subia na mesa empunhando o paliteiro como chique chique e perseguia o ritmo da hora.
No sonho me deu uma bronca por não o ter convidado.
Sentido pela bronca do Nonô, felizmente acordei.
Tive que trocar toda minha roupa de dormir e tomar um bom banho devido a murrinha de carne com gordura.
Já recuperei.
11/06/2020
Pedro Parente




domingo, 7 de junho de 2020

DESCULPEM

DESCULPEM
Tenho publicado aqui no Face alguns fatos pitorescos da minha memória.
Minha intenção, aproveitando esta fase de isolamento social imposta pela pandemia é de levar aos meus amigos um pouco de alegria e distração.
Peço desculpas pelos textos, pois não tenho formação acadêmica e estudar nunca foi meu forte.
Mais tarde descobri que era disléxico. Fiz muitos professores perderem a paciência comigo.
Fui prosseguindo meus estudos primários a duras penas até chegar ao ginasial quando me foi apresentada na aula de Matemática a tal da Álgebra.
Aí, desisti de vez!
Fechei o livro e fui para a rua jogar sinuca, uma das poucas distrações da época na qual eu tinha certa habilidade.
O jogo era apostado e andava sempre com dinheiro no bolso. Muito mais divertido do que aturar as caras feias e o mau humor dos mestres.
Por isso peço desculpas por eventuais "escorregadas" no castiço.
Só me atrevo a escrever pela facilidade do corretor de texto do computador que tira minhas dúvidas.
Valeu!
07/06/2020
Pedro Parente

sábado, 6 de junho de 2020

MORRO DA FORCA

MORRO DA FORCA
É um bairro agradável que leva o nome também de Bonfim.
Não discuto o contraste entre os nomes, porém não me parece ter um bom fim quem morre enforcado.
Detalhe a parte, trata-se de um simpático bairro de nossa cidade. Uma comunidade muito solidária onde todos se conhecem pelo próprio nome ou de um membro da família. Por exemplo: Binho da Guita (apelido da mãe do Binho) logo todos identificam.
A praça do morro tem vários bares muito aconchegantes com os proprietários amigos e invariavelmente parceiros na pinga e o barbeiro tradicional o Lalado faz alegria da turma com seus casos ultra engraçados. A barbearia serve a todos como um sanatório. Quando vou lá, saio de alma leve, cabelo cortado e tonto, pois debaixo da sua mezinha tem sempre um garrafão da “marvada”.
Há tempos lá existia um verdureiro que funcionava também como bar. No fundo um balcão de madeira tradicional com vidraças para expor chicletes e outras guloseimas para as crianças quando saiam da escola.
Seu proprietário era um homem bom prestativo e solidário que se chamava Tunico. Era dos poucos que possuía carro próprio, uma Rural Willys.
Era frequentador do bar, um cidadão de cabelo vermelho e olhos azuis que ficava encostado no balcão, não puxava conversa com ninguém, talvez por timidez, mas que prestava atenção a tudo em sua volta, percebia-se logo que se tratava de um homem do campo principalmente quando pedia uma pinga. O sotaque era inegável.
Numa certa manhã, entra lá esbaforido um cidadão, implorando ao Tunico que levasse a mãe dele na Santa Casa, pois estava passando mal.
O Tunico concordou e falou que ia buscar o carro.
Aí, aquele “sapo” de sotaque da roça, intrigado perguntou:
- UAI TUNICO! OCÊ TAMBÉM DIREGE?
- Tô indo!

06/06/2020
Pedro Parente



quinta-feira, 4 de junho de 2020

LOTO ZOOLÓGICA

LOTO ZOOLÓGICA

O bar da Dª Ester era nossa catedral e ela nossa padroeira.
Naquele ambiente todos os dias era uma festa, algumas efêmeras outras duravam o dia inteiro, enquanto o bar permanecesse aberto.
Ali conheci um cidadão que me encantou à primeira vista.
Moreno escuro de carapinha branca faces sulcadas pelas marcas severas testemunhas das lutas da vida imposta aqueles menos aquinhoados pela sorte. Voz frágil pelo peso da idade, humilde, permanecia calado no seu canto e só respondia o que lhes perguntavam. Tinha muita dificuldade em caminhar, para ajudá-lo apoiava-se em duas muletas de madeira sob os braços. Aquilo o maltratava muito. Penalizados, nos cotizamos e lhes doamos uma cadeira de rodas. Retribui-nos com um tímido sorriso inibido pela falta de dentes.
Cravei no fundo do meu coração a imagem daquele homem como o símbolo da bondade e resignação. Nunca procurei saber se tinha virtudes e defeitos.
Para sua manutenção e despesas caseiras tornou-se “cambista” do inocente “jogo do bicho” escrevendo apostas aos que lhe procuravam.
Era praxe, principalmente aos sábados vários “cambistas” passarem no bar porque sabendo que eu e Dudu estávamos ali, uma apostinha sairia aumentando suas comissões.
Foi aí, num desses sábados, seu Juca como o chamávamos, estava lá sentadinho na sua cadeira de rodas esperando que os operários na hora do almoço fossem fazer sua fezinha jogando uma moedinha ou fração aventurando a sorte, entrou um policial fardado conhecido de todos nós e com a arrogância peculiar à maioria, humilhou aquela criatura.
- Não jogo na sua mão. Você não paga!
Aquilo nos revoltou. Levantei-me e para rebater a afronta do policial, enfiei a mão na carteira e tirei a maior cédula que tinha e entreguei ao seu Juca.
- Jogue 561 na cabeça!
O policial me olhou raivoso e saiu pisando duro. Nossa mesa comemorou.
A conversa continuou animada. Acompanhando o delicioso mocotó pinga e cerveja desciam uma após outra. Em seguida passou lá o “Bigode” cambista amigo que vinha de bar em bar recolhendo apostas do “bicho.”
Direto na nossa mesa.
O Dudu já era manjado, jogava sempre 047 e eu 561. Fizemos nossas apostas e subimos para o Centro. Paramos no Kibon e veio o “Jacaré” também cambista, e com ele apostamos.
Separei-me do Dudu, pois tinha compromisso com a pelada de sábado e fui jogar.
Após o jogo, no bar do Nonô Barbeiro, comemorávamos o resultado da pelada, não sei se vitória ou derrota, com um pernil assado rodeado dos “atletas”.
De repente parou um taxi. Todos voltaram a atenção para o carro. Lá de dentro salta o Dudu, vermelho empolgadíssimo com um jornal dobrado à mão, e aos berros:
- Pedrão estamos ricos! 561 na cabeça!
Receemos aquele monte de dinheiro. Aos cambistas demos um bom agrado. Seu Juca não queria receber. Insistimos e levou um “pacotinho” de grana.
Uns quinze dias passados estávamos eu e Dudu na nossa catedral comentando que estávamos duros. Onde iríamos arranjar um empréstimo?
Pela primeira vez seu Juca intrometeu-se na conversa:
- O dinheiro que vocês e deram está guardado pra vocês lá em casa!
Absolutamente!
04/06/2020
Pedro Parente



terça-feira, 2 de junho de 2020

PELADA DE SÁBADO

PELADA DE SÁBADO.

A turma do bar tinha também seu dia de atleta, com objetivo nobre de exercitar os músculos e tentar manter um preparo físico razoável, embora o objetivo principal seria o após jogo, claro que ninguém é de ferro e nem tanto atleta assim, mirávamos mais o copo do que a bola.
Durante a semana nosso amigo e companheiro de fábrica Nonato era o responsável de arrumar o adversário para o próximo encontro futebolístico. A convocação dos nossos atletas era fácil, feita ali na mesa do Bar da Dª Ester onde a maioria se reunia.
Num desses sábados, Nonato combinou que a pelada seria num campinho que funcionava precariamente, pois não estava concluído. O campo de pequena dimensão era a medida exata para os nossos atletas que não gostavam de correr muito atrás da bola.
Numa das laterais havia alguns detalhes relevantes e inseguros. Para que a linha do quadrilátero pudesse ser traçada, foi necessário escavar o morro manualmente com o auxílio da mão de obra da comunidade. A outra metade da mesma lateral era mais perigosa, um desbarrancado sem proteção nenhuma e logo a baixo havia uma singela moradia da Dª Rosa. Uma senhora simpática e muito solidária. Morava sozinha e tinha dificuldades em manter a casa com a pensão do marido já falecido.
Nosso heroico lateral direito escalado naquela tarde foi o impagável Mijoleta. Baixinho, invocado, falava grosso que nem besouro e quando chapava um copo liso da “marvada” suava que nem panela de pressão. Fazia a alegria quando debulhava as cordas do seu surrado violão sobrevivente de longas noitadas.
O jogo seguia muito bem num compasso de procissão, quando lançaram uma bola alta nas costas do Mijoleta. A bola vindo e ele recuando de costas para o desbarrancado, quando percebeu que não tinha jeito de parar, deu um salto mortal de costa e caiu em pé se esborrachando no telhado da Dª Rosa que tranquilamente preparava sua janta.
Foi um “Deus nos acuda!”
Dª Rosa apavorada achando que havia caído um avião na sua cabeça, abriu a porta da casa e desceu o morro berrando pedindo socorro.
Acabou o jogo deixamos o campo. Nosso time e a torcida cabiam num fusca.
Segunda feira pedimos desculpas a Dª Rosa, mandamos reparar o telhado destruído pela queda do Mijoleta e já entramos em concentração para o  jogo do próximo fim de semana.
Vida de atleta é sacrificada!
02/06/2020
Pedro Parente