sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O LOTAÇÃO


O LOTAÇÃO
Naqueles tempos quando o Rio ainda não tinha tanta gente, o Leblon era uma aldeia. Todos se conheciam pelo nome e não pelo CPF.
A vida passava lentamente. Sem pressa e com muito glamour.
Nossa turma do Edifício dos Jornalistas, no Jardim de Alah era muito grande e se reunia todas as noites, madrugada a dentro, alguns, até o raiar do dia. A alegria era contagiante.
Sem ter o que fazer para matar o tempo, alguns ficavam imaginando que tipo de molecagem se faria àquela hora.
Do transporte urbano participavam os terríveis Lotações como eram conhecidos por sua peculiaridade. Eram micro-ônibus com apenas vinte lugares e com uma porta só. Seus condutores eram pagos por comissão. Quando completava o número de passageiros (lotação) fechava-se a porta e se ninguém tocasse a campainha para descer, só parava no ponto final da linha.
O último lotação passava à meia noite e levava o apelido de Cristo. Depois só às cinco da manhã.
Maneco bem dotado fisicamente parecia uma estátua de ébano esculpida por Da Vinci, de sorriso fácil era a simpatia personificada. Deu a ideia.
A linha Leblon/Estrada de Ferro tinha duas opções via Lagoa ou via Copacabana. A ideia era a turma se colocar no ponto e encher o lotação. O último a entrar perguntava ao motorista:
- Passa na Lagoa? O motorista responderia não este é Copacabana.
Aí descia todo mundo.
E assim foi feito.
Lá vem o lotação vagarosamente com motorista sonolento atento pra ver se “pescava” algum passageiro.
A turma atravessou a rua e se colocou no ponto. Quando o motorista viu aquela quantidade e passageiros apressou-se em parar no ponto já com a porta aberta, largo sorriso e um cortês “bom dia”.
A turma foi entrando lentamente e sentando em seus lugares. Coube ao Maneco fazer a pergunta. Foi um erro estratégico, pois o Maneco ria até de enterro. Entre gargalhada ainda perguntou:
- Passa na Lagoa?
Não aguentou de tanto rir e pulou fora do estribo do ônibus, sacaneando com a turma que estava lá dentro sentada.
O motorista percebeu que se tratava de molecagem, fechou a porta e pisou fundo no acelerador. A turma em polvorosa queria descer, mas não teve jeito. O homem só parou no final da Rua Visconde de Pirajá atendendo ao sinal de um cidadão que estava aguardando no ponto.
Desceram todos com cara de cachorro que cai do caminhão de mudança e se puseram andar alguns quilômetros até o Jornalista.
Maneco sumiu e mais uma madrugada entrou para história.
11/01/2019
Pedro Parente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

MADRUGADA PERIGOSA


MADRUGADA PERIGOSA
Certa madrugada quando saí do Garden Bar encharcado de chopes, acompanhado pelo Paulo Meninão e Gilberto Gaúcho nos encaminhávamos para nossas casas no Edifício dos Jornalistas no Leblon.
Na esquina em frente ao bloco A1 um cidadão não percebeu que chegávamos, sacou de uma pistola rendendo um casal de jovens muito bem vestidos que saia de um baile no Monte Líbano.
Anunciou o assalto e ordenou que o rapaz deixasse o relógio de pulso no chão.
Tempos românticos como no Velho Oeste!
O casal ficou petrificado e sem cor diante da situação.
O rapaz obedeceu e quando se preparava para tirar o relógio do pulso, cheguei nele aos berros e batendo palmas como se espantasse um cachorro.
Não deu outra, o cara mudou a mira. Virou a arma em minha direção e falou:
- “Agora é tu que vai morrer intrujão”.
- Na frente da minha casa não vais assaltar ninguém!
De repente eu estava sozinho na mira do delinquente.
Percebi que o cara não era profissional, se o fosse eu estaria morto.
Contou que estava num samba na Cruzada e deram uma surra nele.
Fui dando papo e de costa para o prédio passei pela muretinha pensando em sair correndo entre as pilastras. Minha chance seria grande. Ele teria que ser muito bom para me acertar. Mas ele foi acalmando e o assalto acabou quase com um aperto de mão.
Dias depois o casal descobriu meu endereço e foi até o apartamento que eu morava no B2 agradecer pelo meu ato.
Eu não estava. O casal foi recebido pela minha tia.
Ele contou que era cadete da Aeronáutica e que naquela noite havia escapado do quartel para encontrar com a moça no baile. Se algo desse errado seria punido.
O tempo passa. A fila anda.
Um dia, pela manhã, fui à padaria do Luso em baixo do Bloco A2 percebi que havia trocado o atendente.
Uniformizado e sorridente, mandou:
- Lembra-se de mim?
- Claro!
Era o meliante que resolvera mudar seu modo de vida ingressando no exército dos trabalhadores honrados.
Vida que segue!
08/01/2019
Pedro Parente



segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

ROTINA BOÊMIA


ROTINA BOÊMIA
TURMA DO JORNALISTA – Assim era conhecida a turma da qual eu participava quando morava no Rio de Janeiro, Leblon.
A turma era enorme e passava a noite conversando fiado debaixo da janela do Vasco um cidadão amigo a quem eu admirava. Jornalista trabalhava de noite numa Agência de Notícias, me parece a United Press, assim sendo chegava muito tarde, já com os alvores do dia. Diziam que além de sair tarde do trabalho ainda dava uma esticada no carteado. Claro que esse detalhe a patroa desconhecia. Quando o aglomerado era grande a conversa subia o tom atrapalhando o sono do nosso bom amigo que chegava à janela e com cortesia pedia que a turma conversasse mais baixo. No que era prontamente atendido.
Detalhe: esse cidadão chamava-se Raimundo Vasco, mas pelo amor de Deus, nunca o chamasse pelo seu primeiro nome. O xingamento com palavrão vinha na hora.
- Meu nome é Vasco!
Nesse clima de harmonia a vida passava feliz, boêmia, romântica e sensual. O Rio era glamoroso na época dos Anos Dourados.
A vida da rapaziada era difícil. Não existia policiamento intelectual nem o tal assédio sexual. Namorava-se respeitosamente e se o cidadão tentasse ser mais ousado levando a mão aonde não devia, corria o risco de levar uma tapa e no dia seguinte seu nome ser tachado como tarado. Não conseguia mais ninguém.
Dessa maneira o ritual era um cineminha, beijinhos, abraços e 22 horas deixava-se a moça em casa. Nessas alturas quem levava vantagem eram as domésticas, pois era a hora que acabavam de arrumar tudo nas casas e após um bom banho, todas cheirosas descerem para a paquera. Aí os moços iam deitar-se na areia da praia e “apreciar o luar”.
Na avenida beira-mar tinham umas profissionais que faziam ponto por ali. Eu, Maurício Arruda e mais um, nos tornamos amigos delas. Dinheiro curto, tanto nosso quanto delas, em algumas noites comprávamos numa lojinha do posto de gasolina, um litro de rum, Coca-Cola e mortadela. No banco da praia fazíamos nossa farra.
A ronda noturna na praia era feita por policiais à cavalo. Já éramos conhecidos e algumas vezes algum deles filava nosso rum. Tudo civilizadamente como manda o bom costume.
Certa noite substituíram a dupla de cavaleiros e em seu lugar colocaram dois novatos desconhecidos. Nosso amigo que descontraidamente namorava próximo à água, foi surpreendido por eles que o enquadraram em “atentado ao pudor”.
Deu-nos trabalho para provar que nariz de porco não é tomada!
07/01/2019
Pedro Parente


sábado, 5 de janeiro de 2019

ALDEIA DO LEBLON


ALDEIA DO LEBLON


Edifício dos Jornalistas – Naquele tempo, o Bairro do Leblon no Rio de Janeiro, era uma pacata e bucólica aldeia. Lá por volta de 1956 o IAPC – Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários resolveu construir três edifícios para vender a seus associados, privilegiando a categoria dos jornalistas. Daí seu nome. São três prédios de doze andares com dois blocos cada um. Uma construção tão imponente que servia como orientação aos navios que adentravam a barra do Rio de Janeiro.
Depois de ocupados, devido ao grande número de apartamentos, formou-se uma nova comunidade formada por pessoas vindas de bairros aleatórios de todos os recantos do Rio trazendo consigo um grande número de jovens adolescentes.
Sem ninguém determinar nada, aquela rapaziada escolheu um ponto para o bate-papo, em frente ao primeiro prédio.
A turma não era pequena e logo surgiram as lideranças pela espiritualidade e genialidade de alguns que possuíam o dom do bom humor.
Eram vários, mas tenho na memória um em especial. Acho que não dormia porque ficava matutando qual seria a pegadinha do dia seguinte. Por sua semelhança fisionômica com “O Corvo” apelidaram-no de “Lacerda”. Esse cara era genial!
Num desses dias resolvemos ir à praia do Arpoador já famosa pela frequência de celebridades e o mais importante, já usavam “maiô de duas peças”.
Na volta, entramos na Rua do Bar 20. Naquele ponto havia uma manobra nos trilhos do bonde para que retornassem como determinava sua linha.
Pois bem, era comum o motorneiro, aquele que dirigia o bonde, saltar e ir até o boteco fazer um lanche ou tomar um cafezinho. Tirava o manete que acelerava o bonde, colocava em seu bolso e desligava a lança, peça que faz o contato com a rede elétrica, puxando uma corda amarrada na traseira.
Esses cidadãos trabalhavam uniformizados inclusive de quepe parecendo até um guarda civil. A firma era inglesa. Não precisa falar mais nada.
Naquele dia, o motorneiro era meio displicente e deixou tudo ligado. Foi fazer seu lanche sossegado exatamente na hora em que a turma chegava.
Sorrateiramente um dos nossos assumiu o comando do bonde. Todos pularam dentro e o piloto improvisado acelerou. O trilho já estava na posição para voltar e assim foi.
O pobre do motorneiro quando viu a cena, desesperado, largou tudo e saiu disparado atrás do bonde. O quepe foi o primeiro que caiu da sua cabeça em seguida para alegria da molecada, moedas em profusão voaram dos bolsos do seu dólmã.
Nosso heroico motorneiro parou o bonde em frente ao Edifício dos Jornalistas e desaparecemos entre as colunas com o coração saindo pela boca.
Haja adrenalina!
Pedro Parente
05/01/2019

sábado, 15 de dezembro de 2018

DESILUSÃO


  • ENVOLVIDO PELO CLIMA NATALINO. 
  • NÃO O DAS LOJAS! 
  • O AMBIENTE DO CARINHO E REFLEXÃO. 
  • OUVINDO AUGUSTIN LARA COM SUAS MELODIAS ADMIRÁVEIS AO SOM DE SUA VOZ E VIOLÃO, VOU LEVITANDO. ME DESPEDINDO DESTE MUNDO SÓRDIDO ONDE OS SOLIDÁRIOS SÃO ENCARCERADOS E OS MEDÍOCRES SÃO EXALTADOS. 
  • LEVO ESTA AMARGURA PARA A SEPULTURA DO PAÍS QUE AMEI PELA VIDA TODA E ME NEGUEI A DEIXÁ-LO.
  • PREFIRO LEVAR COMIGO AS LEMBRANÇAS DE OUTRORA QUANDO RESPIRÁVAMOS FELICIDADE.
  • DANÇÁVAMOS ABRAÇADOS. TOMÁVAMOS BENÇÃO DA MÃE E DO PAI.
  • OUTROS TEMPOS FELIZES!
  • AINDA CAMINHO ENTRE OS VIVOS, MAS MINHA ALMA JÁ ESTÁ EM OUTRA ATMOSFERA.

  • 15/12/2018
  • Pedro Parente

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O IDIOTA - E lá se foram os médicos cubanos de volta à sua pátria lamentando deixarem para trás pelo menos 30 milhões de brasileiros com quem mantinham laços profissionais no acompanhamento de suas doenças como também pelo lado afetivo estabelecido entre médico e paciente ao longo de anos de convívio.
Os mais prejudicados, como sempre, serão os pobres, os ribeirinhos da imensa amazônia que muitos enchem o peito para dizer que "A Amazônia é nossa" e não sabem o que é viver a dias de viagem do hospital mais próximo. Muitos daquela lugar não sabiam que existiam médicos.
Médicos existem, mas amontoados nas metrópoles preferencialmente à beira do mar. Normalmente oriundos de famílias abastadas, pois o curso é muito caro e pobre não tem aceso.
Dizem os xenófobos e arautos do "patriotismo": Lugar de cubano é em Cuba. Não percebem que são simples vacas de manadas que seguem o berrante da Globo.
Pois bem esses profissionais da medicina das mais avançadas do mundo, voltam com alegria à sua pátria onde deixaram seus familiares protegidos pelo governo que lhes dá educação, saúde e transporte.
Lá qualquer cidadão pode cursar medicina de alta qualidade oferecida pelo poder central gratuitamente e por isso a expectativa de vida do cidadão é das melhores do mundo.
Pobre Brasil! Como uma peste é eleito (não sei em que circunstância) um idiota incentivador da violência e da tortura que destruiu tudo que foi construído em benefício do povo ao longo de vários anos de luta.
"O castigo vem a cavalo" numa cidade brasileira 70% votou nele, 75% dos médicos cubanos foram embora.
19/11/2018
Pedro Parente

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

FIM DE SEMANA

 
.FIM DE SEMANA- 

Gratificante fim de semana com a presença de meus familiares do meu lado Barroso moradores do Rio de Janeiro e mainha afilhada Márcia com o marido Miguel que residem no E.Santo. 
Recarreguei minhas fracas baterias com o carinho recebido da parte deles.
Com eles comecei minha caminhada pela vida quando cheguei ao Rio de Janeiro em 1960.
Boas lembranças vieram à tona. 
Naqueles anos dourados o Rio era ameno, romântico respirava-se um ar impregnado de alegria. 
Aquele momento parecia eterno e não passaria jamais. Levitávamos na nossa volúpia de jovens transbordando amor nossos olhos voltados para as maravilhas produzidas pelos impulsos da juventude.
Imortais!
Porém, a inexorável marcha do tempo nos mostrou que aquilo era efêmero, passageiro.
Ficaram as marcas, doces lembranças e a presença de uma profunda e irretocável amizade.
Obrigado primos!
Finalmente um grande presente.
Para toda chegada, haverá sempre uma partida.
De volta à rotina com o coração partido, vou curtindo minha solidão.
12/11/2018
Pedro Parente

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

JUCA FISCAL


JUCA FISCAL
Na São João del-Rei de outrora, nada de digital. Tudo presencial!
A fiscalização da Fazenda Estadual volante era exercida num Jeep Willys, de fabricação brasileira, muito acanhado, porém orgulho da nossa indústria automobilística.
Dentro dele um motorista e um fiscal com talão de multa à mão. Ambos, funcionários do Estado. Algumas vezes a equipe dispunha de um policial civil para impor respeito a algum recalcitrante.
O fiscal era uma figura bizarra muito rigoroso no seu mister. Cabiam-lhe algumas peculiaridades extravagantes, tocador de violino, seu hobby predileto era criar cobras venenosas em sua residência. Só cobras perigosas como cascavéis, corais, urutus e etc... Todas bem condicionadas em caixas de madeira teladas e limpas.
Muito esperto, dizia que esse artifício lhe estava rendendo bons lucros, pois todos os vizinhos sabendo da sua coleção tratavam de se mudar para bem longe lhe vendendo a casa por preço barato.
Aos domingos de manhã, reunia os mais corajosos para tomar sopa de mocotó acompanhado de boa pinga. Nesse ambiente, aproveitava para demonstrar sua qualidade de violinista. Especialista em tangos chegava a provocar lágrimas nos mais sentimentais.
Almoço, uma bela macarronada confirmando sua descendência italiana.
Pois bem, essa criatura, cumprindo seu ofício, ao raiar do dia no jipe em companhia do motorista foi cercar os sitiantes que traziam seus produtos manufaturados para vender na feira.
Juca Fiscal era temido do povo da roça. Todos conheciam sua fama de “ferrabrás”.
Nesse dia, lá vinha um desses colonos, montado em sua mulinha com algumas galinhas peadas para vender na feira.
Deu de cara com o austero fiscal que lhe foi perguntando:
- Cadê a guia?
- Não moço! Essas galinhas foi o patrão que mandou de presente para um tal de Juca Fiscal! O senhor sabe o endereço dele?
Juca imediatamente entregou seu endereço ao cavaleiro.
Está esperando as galinhas até ontem.
Não tripudie a inteligência do matuto!
19/10/2018
Pedro Parente

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

MIQUIMBIRA


MIQUIMBIRA
Naqueles tempos quando o Leblon no Rio de Janeiro ainda era uma aldeia, nos conhecíamos pelo nome, e, principalmente o apelido. Tudo muito pessoal e afetivo. Nada de CPF.
Era o final dos “Anos Dourados” quando se exaltava o amor. As pessoas dançavam abraçadas, quando mais comprometidas, de rosto colado. Namoro, só mãos dadas, uns beijinhos e quando muito uns “amassos”.
Na esquina da Rua Carlos Gois com Ataulfo de Paiva e está lá até hoje, o bar Cliper que era considerado possuidor  da melhor serpentina para tirar o chope na medida certa de temperatura e colarinho. Era comandado por laboriosos e amigos lusitanos.
Ali era o ponto de encontro da rapaziada. Todos jovens, bronzeados e felizes. Havia um em especial mais bronzeado que outros. Era negro, sestroso sempre mostrando a dentadura perfeita com dentes alvos invejáveis. Baixinho, voz estridente, mas era a simpatia personificada. Não nos deixava tristes em nenhum momento. Sempre contando piadinhas e tirando sarro com a cara da moçada.
Numa tarde de domingo, as famílias tinham o hábito de pegar seus carros Sinca, Gordini, DKW ou Fusca e iam passear na Avenida Delfim Moreira à beira mar.
Erick jovem filho de norueguês, olhos azuis, cabelo parafinado escorrido sobre os ombros, herdou do carioca a molecagem saudável. Chamou o Miquimbrira e combinaram de fazer uma cena na calçada da avenida beira mar.
Arrumaram um revólver de espoleta, de brinquedo é claro. Combinaram de fingir uma discussão feroz e no auge o Miquimbira puxaria o revólver e dava um tiro de espoleta no peito do Erick que caia levando a mão no coração já vermelho de ketchup portado entre os dedos num saquinho.
Naturalmente os carros ao ver a cena, já diminuiriam a marcha na expectativa do que aconteceria. Naquela época o povo era solidário.
O combinado era que quando os carros parassem e por ventura alguém viesse em socorro do Erick ele levantaria provando que se tratava de uma brincadeira.
Tudo acertado, todo mundo para a praia. A turma ficou dispersa do outro lado para não dar na pista.
Começa a discussão. Os carros diminuindo a velocidade até parar. O Miquimbira saca do revólver e aperta o gatilho na direção do peito do Erick.
A espoleta estalou. O Erick caiu já com o peito enlameado de ketchup de lado no chão.
O motorista do automóvel mais perto, desceu na hora e pegou o Miquimbira pelo braço. O homem era um bruto. Já deu logo um sopapo no negrinho que se explicou dizendo tratar-se de uma brincadeira.
Só que o Erick de molecagem continuou caído enquanto outros motoristas foram chegando e enchendo o Miquimbira de socos e ponta pés.
Desesperado, Miquimba gritava:
- Gringo, pelo amor de Deus, levanta!
Já não aguentando conter o riso, Erick levantou de repente e saiu correndo na contra mão.
Todos com cara de bobos, aí o Miquimbira cresceu:
- Não falei que era brincadeira?
A turma que a tudo assistira voltou pro bar às gargalhadas para ouvir o Miquimbira xingar o Erick.
18/10/2018
Pedro Parente

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

ANIVERSÁRIO

Hoje é meu aniversário - Há 78 anos nasci em Belém do Pará.
Uma longa caminhada, que no final parece efêmera. 
Vivi grandes momentos nesse imenso país que amo e que tenho certeza não há nenhum igual. 
É o melhor do mundo! Meu passaporte está em branco e assim permanecerá.
De um tempo para cá percebi que, de forma velada, a imprensa marrom e inescrupulosa, vem cumprindo seu papel. Como submissa às ordens do Pentágono dissemina o ódio entre irmãos brasileiros, dividindo-nos.
Lamentável que deixássemos nos envolver por essa triste epidemia.
Devido à essa contaminação tenho visto famílias repartidas e amigos estremecidos.
Nunca imaginei assistir ao que tenho presenciado essa divisão insana entre pessoas racionais.
Incrível!
O que há é uma eleição onde o povo tem o sagrado direito de votar escolhendo seu representeante para administrar o país nos próximos anos.
Simples assim.
Merece uma reflexão se vale a pena a perda de amigos e familiares por não sabermos lidar com o contraditório.
De nós depende o destino do nosso país, que para alguns é um lixo, não vale nada.
Não é o que pensam os estrangeiros pois se apossam de todas nossas riquezas sem que ninguém reaja.
Prefiro voltar meu pensamento à minha mãe que me gerou, recebeu-me com carinho e alegria até enquanto pude estar ao lado dela.
A melancolia de não tê-la mais, não empana nenhum pouco os dias de alegria a seu lado.
O dia de meu aniversário hoje, comemoro a data como um marco em que já estou mais próximo de revê-la voltando a paz em minha alma pela presença diária em meu pensamento sem poder tocá-la.
Aos meus queridos amigos, meus agradecimentos pelos votos de saúde e paz!
05/101940
Pedro Parente

domingo, 23 de setembro de 2018

PRIMAVERA


PRIMAVERA
Hoje acordei envolto no perfume do meu manacá florido, lembrei-me da chegada da primavera.
Abri a janela para saudá-la!
Recebeu-me com seu sorriso natural e o hálito inebriado de perfume.
De roupa nova.
O arvoredo com folhagem nova e viçosa.
A passarada alvoroçada e alegre parece que se cumprimenta ao passar rasantes uns pelos outros.
Ao fundo a Serra São José começando a se recuperar de pequenos incêndios combatidos com presteza pelos responsáveis.
Felizmente este ano não houve a calamidade de outros anos.
Nesse cenário, entorpecido e levitando, o pensamento foge ao meu domínio e se solta pelo espaço trazendo consigo tempos passados quando a primavera ainda habitava meu coração romântico, vivendo os melhores momentos da minha vida de jovem destemido sem perceber que o tempo inexorável não para.
À chegada da primavera trocava as calças grossas, paletós e cachecóis por sandália e bermuda.
Finalmente podia voltar a frequentar a praia.
Tomar sol, jogar vôlei, suar bastante, beber um mate gelado, entrar no mar com seu cheiro de saúde e correr ao bar para arrematar com vários chopes na Clippers, a melhor serpentina do Leblon.
Sanduiche de pernil era a especialidade dos simpáticos portugueses que nos tratavam como filhos. Eram tão amigos que até trocavam cheques para a turma mais confiável.
À volta para casa, já com as lâmpadas dos postes acesas, era lenta, pois cada barzinho no caminho, uma meia trava para mais um gole.
Em casa um bom banho e cama.
Que delícia.
Ainda bem que tenho boas lembranças como companhias, disputam lugar na minha mente cansada ocupada de pensamentos tristes que caminham de mãos dadas com a solidão dos velhos.
Minha bela primavera me desculpe!
23/09/2018
Pedro Parente

sábado, 1 de setembro de 2018

IVO NOHRA


IVO NOHRA

Mais uma vez fui surpreendido com a morte do meu fiel amigo Ivo.
Pessoa de alma alegre que veio ao mundo com o objetivo de fazer as pessoas alegres e felizes. Alma boa e sorriso fácil. Onde parava formava-se uma roda de pessoas para escutar seus causos e piadas. Lembrava-me dele diariamente e às vezes o dia todo.
Encontramos a última vez na esquina da Primavera. Eu estava dentro do carro, ele passava distraído pelo passeio. Chamei-o. Agachou no lado do carona, colocou o rosto dentro do carro. Tentamos conversar. As lágrimas não deixaram. Talvez tenha sido o discurso mais eloquente da minha vida. Saiu sem nenhuma palavra, só soluço. Foi o adeus!
Houve época, quando eu administrava o Posto ao lado do Edifício São João que nos víamos diariamente. Foram catorze anos.
Certo dia chegou cedo e me falou de um peixe frito vendido à beira da estrada, próximo a Itaperuna – RJ.
Acabei aquilo que estava fazendo e convidei-o a entrar no meu carro para ir ali!
Toquei para Itaperuna. Sem celular parei em Barbacena para avisar à Laila sua esposa e fomos embora. Mais de 300km de distância.
Chegamos ao tal lugar. Um boteco comum na beira da estrada servia uns cascudinhos saborosos. Como eu estava amargando uma bruta ressaca, foi com sacrifício que engoli o primeiro pedaço acompanhado por uma pinga da roça. O segundo pedaço foi mais fácil acompanhado de umas cinco pingas.
Ivo era muito conhecido dos comerciantes em Muriaé. Sugeriu que fossemos visitar um turco amigo dele forte comerciante naquele local, pois sabia que eu levava no porta-malas um mostruário de cobertores fabricados em São João. Talvez salvássemos a gasolina da viagem.
Muriaé fazia um calor infernal a ponto de o asfalto derreter.
Apresentou-me um turcão de dois metros de altura que parecia um guarda roupas. Trajava uma jardineira com alpercata de pescador. O suor escorria que até suas calças estavam molhadas.
Quando tirei da maleta o mostruário e o Zé da Bahdra viu que era cobertor, falou:
- Moço vender cobertor em Muriaé é a mesma coisa que vender geladeira no polo!
Chegamos à casa de madrugada.
Ganhei um dia desfrutando da companhia de meu querido amigo.
Requiescat in Pace!
01/09/2019
Pedro Parente

domingo, 26 de agosto de 2018

FIM DE JORNADA


Próximo de desencarnar, estou me preparando para me desprender desta vil matéria e finalmente poder levitar livremente sem ser percebido nem incomodar ninguém.
Não pagarei mais pedágio e nem passagem de avião para navegar solto pelos lugares que fui feliz.
Ver de perto a praia onde me criei junto com os meninos humildes daquela bucólica ilha de pescadores no Pará.
Será uma festa.
A pelada na maré baixa. 
Correrei solto com aqueles meninos atrás de uma bola de borracha.
Será que reverei o Candinho?
Meu amiguinho sem saúde que a tudo assistia sem poder participar. Nunca o deixamos de lado. Onde íamos o levávamos.
Muitos anos não o vejo. Nos deixou precocemente.
Quero abraçar a todos e a ele especialmente.
Deitarei no colo da minha mãe e não levantarei mais pela eternidade, tentando apagar o remorso de tê-la deixado vindo para o Rio de Janeiro, como uma mariposa ofuscada pela luz de uma luminária.
Meu pai e meus irmãos estarão comigo.
Reverei meus amigos que tanto amei e que me deixaram.
Repetiremos aquilo que sempre fizemos: em torno de uma grande mesa comemoraremos nosso reencontro.
Finalmente o descanso e a vida eterna!

25/08/2018
Pedro Parente

domingo, 12 de agosto de 2018

DIA DOS PAIS

DIA DOS PAIS - Hoje o calendário destaca como Dia dos Pais. Quero render minha homenagem à essa figura que é o fulcro da família e muitas vezes empanada pelo brilho carismático da mãe.
Batalhador invencível, muitas vezes tendo que "matar um leão por dia" para alimentar os filhos e manter a casa enquanto a mulher se desdobra com os afazeres domésticos.
Oculto no anonimato vai encarando a vida com valentia e altivez.
Não tenho mais o meu! Há muito tempo!
Deixou como herança a imensa saudade que me acompanha diariamente desde que se foi.
Hoje, especialmente as lembranças jorram aos borbotões do fundo da minha alma. Esmaecidas, porém vivas.
Acompanhei sua luta para manter uma prole de cinco homens.
Outros tempos, sem geladeira. A comida teria que ser feita diariamente com produtos vindos frescos da feira e do açougue.
As carnes conservadas na banha.
Quando papai queria tomar um vinho gelado no almoço de domingo, eu ia à Fábrica de Gelo comprar um pedaço. O gelo era mantido em casca de arroz para não derreter sob o infernal calor tropical.
Levava um balaio e vinha depressa para não descongelar.
A nós meninos servia com parcimônia e adicionava açúcar.
Era uma festa.
A marcha inexorável do tempo abateu-se sobre ele que envelheceu. Na vida nada é definitivo.
Certo dia quando cheguei em casa no Bonfim vindo de carro de Belém, recebi o recado pra que voltasse, pois queria se despedir de mim.
Assim o fiz.
Em lá chegando, encontrei-o deitado em sua cama, de pijama.
Sentou-se e deu um inesquecível sorriso de alegria:
- Que bom que você veio, meu filho!
Deitou-se. Como uma vela que se apaga, sua vida foi chegando ao fim.
No seu último estertor, disse:
- Adeus Pedro!
Virou-se de lado e morreu.
Ali. Na minha frente, uma das razões do meu viver, chegara ao fim.
Carrego comigo sua genética e a gratidão por ter me tornado um homem.
ABENÇÃO PAPAI!
12/08/2018
Pedro Parente

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ADEUS JUJU

ADEUS JUJÚ
Ficar por último é muito triste. A maioria dos meus queridos amigos, já foi!
Ontem meu companheiro de muitas jornadas, madrugadas, campos de peladas e bares, me deixou.
Meu combalido coração está repleto de epitáfios. Cada um mais triste que o outro.
Juarez era seu nome de batismo. Vivemos tempos felizes!
Companheiro calmo, educado e solícito.
Fizemos inúmeras viagens juntos, principalmente à Belém.
Na construção da casa que moro participou ativamente.
Acho que o cigarro seu companheiro inseparável ajudou a abreviar sua trajetória por estas bandas.
No intervalo das nossas peladas "sabadeiras" com os pulmões a mil, o Juju puxava um cigarro e tragava prazeirosamente.
Me doía o coração. Mas, lhe dava prazer. Paciência!
Rubro negro de raça, não pode assistir ao empate heroico do nosso Flamengo ontem em Porto Alegre
Amigo véio! As lembranças de ti permanecerão indeléveis no meu coração.
Vai animar a vida dos bem aventurados ai em cima, com teu humor refinado numa mesa com pano verde e um baralho novinho
Breve nos encontraremos!
REQUIESCAT IN PACE!
02/08/2018
Pedro Parente

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O CALVÁRIO


O CALVÁRIO
Naqueles tempos, havia um caminhão velho bastante maltratado que já não possuía as laterais e nem a parte traseira da carroceria.
O capô não tinha mais as presilhas de maneira que quando passava em cima de um buraco abria e batia com força como a boca de um jacaré. Por ter sido de cor verde ganhou o apelido. Movido a gasolina, pouco circulava.
Era dirigido pelo Ivo. Um moreno bem educado e solícito. A todos cumprimentava com gentileza e por isso gozava de grande simpatia.
Certo dia, Tião do Virgílio, homem forte, truculento e de pouco sorriso. Trabalhador da construção civil. Num dia de sábado quando o serviço acaba mais cedo, ao meio dia, catou uns restos de madeira ainda com restos de cimento que serviram para a escora de laje. Fez um feixe, amarrou com arame cozido, forrou com a camisa e “ombrou o bruto”.
Fazia sol de rachar naquele dia de verão e sua casa estava muito longe, no alto do Morro da Forca. Subida forte. Pensou: - Preciso desta lenha para fazer o almoço. E começou a subir.
Trincando os dentes de raiva pelo destino que a vida lhe reservara, a cada passo um impropério.
Parou no Tonico Verdureiro e tomou uma lapada da “marvada”.
- Agora falta pouco!
Com os passos cada vez mais lentos, estimulado apenas pela pinga, continuou subindo.
Ao dobrar na parte mais íngreme da sua rua, já avistando a soleira da porta da sua casa, chega o Ivo em seu velho caminhão, solícito como sempre, segurou na embreagem e insistiu com o Tião:
- Joga a lenha aí atrás e entra!
Tião relutou o que pode. Para não fazer desfeita com uma pessoa tão boa, aquiesceu. Jogou o feixe de lenha no taipar e entrou na boleia sem porta.
Para azar dele, quando o Ivo tentou arrancar com o caminhão, o motor apagou.
- Não se preocupe! Galho fraco! Estamos na descida. É só um tranco e ele pega. Disse o Ivo.
De tranco em tranco o caminhão foi descendo, descendo até estacionar com o restinho do embalo, na frente da construção que o Tião trabalhava.
Ivo foi pedir desculpas.
Com tanta raiva Tião pegou o feixe de lenha atirou no chão despedaçando os sarrafos de tábuas para todos os lados.
Catou tudo novamente, amarrou o feixe e recomeçou lentamente o seu calvário.
Dizem que o caminhão ficou mais de uma semana parado ali até que o Ivo arranjasse um trocado para abastecer.
Vida ingrata!

09/07/2018
Pedro Parente

MORRO DA FORCA


MORRO DA FORCA
Na vetusta, simpática e charmosa cidade São João del-Rei onde moro, tem um bairro chamado Morro da Forca ou Bonfim. O que é pior, seguindo o Morro da Forca o bairro passa a chamar-se Arraial das Cabeças. Tétrico!
Mas isso é assunto para o nosso historiador Antônio Ávila.
Incoerências à parte são bairros singelos que hospedam pessoas e bares da melhor qualidade.
Há de se exaltar a Barbearia do Lalado que funciona também, como terapia para os frequentadores e clientes, pois Lalado de humor refinado é um grande contador de “causos” acompanhados de encenação perfeita.
Dependendo da inspiração do dia um corte de cabelo demora mais de meia hora. Com paciência e cuidado espera o freguês para de rir para não cometer nenhum acidente, deixando o infeliz sem cabeça.
O cômodo onde funciona a barbearia é diminuto. Cabe apenas a cadeira profissional, o espelho tradicional, uma mezinha de canto e três cadeiras de espera. Se chegar mais um espera do lado de fora. Sim, também um sanitário apertado que não se entra de uma só vez. Primeiro abre-se toda a porta, entra-se e aí sim, dá para fechar.
Lê-se na porta do sanitário: SOMENTE Nº 1.
Certo dia, com a lotação completa e mais alguns que fazem uso da boa pinga que o Lalado mantém escondida no cantinho mais fresco da barbearia, chegou um freguês humilde e talvez analfabeto, pediu permissão para usar o sanitário e não atentou para a placa.
Lalado que não faz distinção entre pessoas franqueou-lhe o espaço.
O cidadão extrapolou o tempo normal para se esvaziar a bexiga.
Os circunstantes passaram a se entreolhar desconfiados.
Eis que, de repente, a porta se abriu e o homem saiu pálido abotoando a correia da calça. Agradeceu e sumiu.
Deixou atrás de si só o bafo. Um odor putrefato que empesteou o salão.
O salão ficou vazio.
Os que estavam dentro se espremeram na porta tentando sair de uma só vez, inclusive aquele que estava sentado cortando o cabelo com o guarda pó enrolado no pescoço.
Lalado revoltado:
- Esse excomungado comeu urubu sem tempero!

09/07/2018
Pedro Parente