sexta-feira, 23 de abril de 2021

CLARISSE

 ADEUS CLARISSE.

Hoje é mais um dia triste na vida deste octogenário!

A vida tem o trajeto de uma droga que te excita no início, mas te cobra no dia seguinte em forma de ressaca e abatimento moral.

Quando aqui cheguei e fui trabalhar na Fábrica São João em Matosinhos, tornei-me amigo do Nonato responsável pela parte burocrática da mesma.

Levou-me para dentro de sua casa e concedeu-me o privilégio de participar de sua família. Nos tornamos irmãos inseparáveis. Chefe de uma prole de oito filhos, tinha como esposa uma das criaturas das mais admiráveis que conheci na minha vida de muitas andanças.

CLARISSE. Acho que possuía todos os predicados de uma mulher do bem. Simples, generosa, afável, solicita e nunca de mau humor. 

Cheia dos afazeres domésticos e tendo que cuidar da casa e dos filhos, ainda encontrava tempo de, nos sábados, preparar deliciosos tira-gostos quando voltávamos da pelada, famintos e sedentos.

Participavam da festa os dois times adversários, pois todos eram amigos. No sábado seguinte a mesma coisa, com um detalhe, os uniformes do time, limpíssimos lavados por ela.

Ontem, ao seu estilo de anjo celestial, nos deixou saudosos e tristes, porém na certeza que levou suas luzes para ampliar a claridade onde transitam os bem aventurados filhos de Deus.

Descansa em paz. 

Breve nos veremos.

23/04/2021

Pedro Parente





domingo, 4 de abril de 2021

VENTOS DO SUL

 

VENTOS DO SUL

Ventos do sul com temperaturas baixas anunciam mudança de estação.

Chegou o outono!

Mudanças de hábito aqui em nossa pequena cidade na região sudeste do Brasil.

Retiram-se dos armários casacos e blusas de mangas; cachecóis e mantas postos ao sol para espantar ácaros e mofo; as roupas leves guardadas ficarão ali à espera do próximo verão.

O menu muda.

As comidas vão sendo substituídas por alimentos mais pesados, caldos suculentos bem quentes.

Dou preferência a um belo “caldo verde” com batata, linguiça, couve e bastante azeite do bom. Especiaria da culinária portuguesa.

Fico observando os passarinhos se aninharem mais cedo em silêncio coladinhos uns aos outros. O aconchego deles leva meu olhar espontâneo à minha cama que me estende os braços macios com sua mantinha estendida.

Minhas cachorras já vão se acercando de suas cobertas bem próximas ao fogão à lenha que ferve sua chaleira com o guarda-mancebo preparado com o saco tradicional e pó de café a fim de passar um estimulante “fresquinho”.

Nesse clima de muita paz e uma boa prosa, esperamos o sono chegar e não demora mais do que meia hora, nos enfiamos sob as cobertas e dormimos o sono dos justos.

Faço minhas orações a Deus e meus Orixás e descaso tranquilo

Boa noite!

04/04/1921

Pedro Parente.

segunda-feira, 29 de março de 2021

ROTATÓRIA

 Em frente ao portão da minha casa na avenida Luiz Giarola 3570 construíram uma rotatória que é um monumento ao mau gosto para a engenharia urbana, além do perigo que expôs os transeuntes.

Grande parte da avenida não tem meio fio e os pedestres são obrigados a usar o leito da avenida para caminhar.
Com uma iluminação medíocre já aconteceram vários atropelamentos fatais.
No caso da rotatória, desviaram o tráfego da avenida para uma entrada de condomínio.
O que era uma avenida passou a ser via secundária.
Creio que tudo de acordo com as normas de tráfego da engenharia municipal.
Pois bem, ontem de madrugada um cidadão endinheirado, transformou seu automóvel caríssimo em avião.
Não viu aquela aberração no meio da estrada e entrou com tudo, nem marca de freios no chão deixou.
Segundo soube, o bólido estava trafegando a 180 kmh.
Simplesmente decolou!
Parece que o piloto não tinha prática em aterrissagem, foi largando os pedaços daquela preciosidade pelo caminho.
Tinha até jardim de para-choques!
Minha cunhada e minha nora tinham entrado havia alguns minutos.
Espero que os acidentes por aqui não compitam com as mortes pelo vírus do COVID.
27/03/21
Pedro Parente.

sábado, 27 de março de 2021

31 DE DEZEMBRO

 31 DE DEZEMBRO



 

Vivíamos os “anos dourados” década de 60 no Rio de Janeiro.

O obscurantismo se mantinha recluso nos esgotos e submundo. A alegre população da cidade que a cognominou de Cidade Maravilhosa, tinha vistas  para as alegrias de carnaval e também do futebol. 

O povo era muito feliz e eu tive a graça de viver aqueles tempos apesar da ditadura.

O carnaval ainda era realizado na Av Rio Branco e tive a oportunidade de ver mil e quinhentos figurantes do Bloco Bafo da Onça fantasiados de um traje de onça e tamanco de madeira, batendo os pés marcando o compasso do samba 

De arrepiar!

O outro adversário de destaque era O Cacique de Ramos, também deslumbrante.

O Centro do Rio exorbitava na construção de arranha-céus: Edifício Menezes Cortes, Marquês do Herval, De Paoli e o famoso Avenida Central que surgiu no lugar do badalado Café Nice onde a alta boemia se reunia e que serviu de inspiração para um lindo samba do Chico Anísio.  

Dentre as inúmeras efemérides comemorativas, havia uma espontânea da qual todos trabalhadores da região central do Rio participavam, a chuva de papel picado n dia 31 de dezembro, o derradeiro dia do ano velho!

Emocionante!

O ápice da festa era meio dia quando se encerrava o expediente dos escritórios. 

Haviam alguns que colecionavam papel picado durante o ano todo para participar com euforia daquela festa contagiante. 

Eu ficava extasiado pelo clima que envolvia a todos, de fato uma Confraternização Universal! Todos se abraçavam e acarinhavam. Muitos escritórios promoviam um sambão da pesada com direito a uísque e outros bichos mais.

Houve anos em que eu era bancário, tinha que participar da festa e voltar para o trabalho, pois teria que contabilizar os juros nas contas dos clientes que eram remunerados com 1% aa de juros. 

Saíamos do Banco de madrugada, exaustos!

Era comum no último dia do ano os correntistas presentearem a nós funcionários com uma lembrancinha, normalmente uma garrafa de bom vinho, naquele dia o Sr Osvaldo T. judeu que tinha um comércio de pedras preciosas decidiu nos presentear com dinheiro em espécie. Pela ética do Banco somos proibidos de aceitar.

O subgerente contestou com o homem, porém ele não cedeu e ameaçou tirar a conta da agência.

Deu um envelope fechado para cada um de nós com uma quantia suficiente para uma boa ceia de fim de ano, porém o dinheiro foi parar na semana seguinte nos cabarés da Rua Alice.

Numa dessas datas, adiantamos nosso serviço nas contas correntes e saímos do Banco às 15 horas.

Tomei um táxi levando comigo algumas garrafas de vinho presenteadas pelos clientes.

O motorista um moço de seus trinta anos levou-me até o Garden Bar no Leblon onde eu fazia ponto. Convidei-o para sentar-se à minha mesa. Concordou, sentou-se e sorvemos todas as garrafas que eu havia levado e mais algumas de propriedade do bar.

Às 23horas pediu licença para cear com sua família e me deixou só, continuei minha ceia com os garçons de plantão.

Adorava o Rio e vivia intensamente seu fetiche!

27/o3/2021

Pedro Parente.

 




segunda-feira, 22 de março de 2021

REFORMA MACABRA DA PREVIDÊNCIA.

 REFORMA MACABRA DA PREVIDÊNCIA.



 


Segundo as mais recentes estatísticas, esta semana atingiremos a marca de 300 mil mortes por COVID 19.

Segundo as mesmas 96% das vítimas eram pensionistas do INSS.

Se consideramos a grosso modo, sem cálculos sofisticados que uma parte continuará recebendo em forma de hereditariedade e que alguns ganhavam mais de um salário mínimo, chegaremos a um valor que o Governo Federal deixará de desembolsar a favor dos beneficiários. 

As mortes não cessarão, consequentemente os valores, também aumentarão para regozijo sinistro do governo maquiavélico que comanda nossa infeliz nação.

 


Atualíssimo Rui Barbosa sabia de que falava, parecia premonição.

Nosso país entregue nas mãos de um genocida permite que aconteçam milhares de mortes que poderiam ser evitadas.

Não existe um poder da República ocupado por pessoas de bem que possa salvar nosso povo e nossa Nação!

Melancólico nosso destino!

Os invasores que aqui chegaram dizimaram, estupraram, seviciaram e cometeram toda sorte de crimes hediondos contra a heroica nação nativa, implantaram na nossa cultura o ódio e a indiferença pelos nossos semelhantes.

A maioria não tem olhos para o desespero de um chefe de família ao ver os filhos chorarem de fome. 

Toda prosperidade será em vão se existir um só ser humano que não tenha direito de se alimentar.

Inacreditável que uma parte dos habitantes do Brasil, fanáticos, sigam essa alma das trevas que veio para infelicitar nosso país.

“BRASILEIRO PROFISSÃO ESPERANÇA.”

A maioria de nossa gente acredita que sobreviveremos.

Faço parte dela, tenho esperança de rever no próximo verão, minhas paineiras floridas!

23/03/2021

Pedro Parente


sexta-feira, 19 de março de 2021

VER O PESO


 

VER-O-PESO.

O Mercado Ver-o-Peso ou Mercado Municipal Bolonha de Peixe ou Mercado de Ferro ou somente Ver-o-Peso, é um mercado público inaugurado em 1625, pertencente ao Complexo do Ver-o-Peso, situado na cidade ... Wikipédia

No início dos anos 50 o destino quis que fossemos morar na doca do Ver-o-Peso cartão postal de Belém do Pará

É um sobrado de três andares que corresponde em tempos modernos talvez a um prédio de 4 ou cinco andares tal a altura do pé direito, isto é, a distância entre o piso e o teto da casa. Sendo Belém muito quente, debaixo da linha do Equador as casas eram construídas de maneira que fossem ventiladas.

Minha mãezinha já me parecia velhinha, hoje ultrapassei os anos de sua vida em que me presenteou com sua presença. Era uma pessoa inteiramente dedicada às tarefas da casa.

Formou-se em professora e também, na Escola de Belas Artes e com isso tornou-se excelente pintora de telas.

Dela minha herança se compõe a saudade e uma tela que presenciei sua feitura.

Na sala do sobrado a vi rascunhar a vista exposta à nossa frente através da janela do último andar.

Em um cavalete com a tela, palheta, pincel e suas mãos habilidosas ia dando vida e cores à sua obra.

Era comum pedir para eu ir ao Armazém Âncora comprar bisnagas de tinta que ainda lembro da exigência das marcas: verde Águia, azul Le Franc e etc...

Na minha inocência de menino, intrigado, acompanhava ela transportar para a tela uma visão detalhada daquilo que estava à nossa frente, inclusive incluindo meu pai de pé apoiado em um guarda chuvas.

Quando faleceu fui ao seu enterro e num canto da casa encontrei aquela tela enrolada e esquecida.

Trouxe-a comigo. Restaurei-a e coloquei numa moldura que hoje é meu altar onde me penitencio por tê-la deixado e vindo correr mundo.

Parece que ainda sinto o cheiro das tintas e o aroma do talco que usava feito de pau d’Angola sentada na sua tradicional cadeira de palinha.

Obrigado mãezinha!

19/03/2021

Pedro Parente

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

A LIDA DIÁRIA.

 


A LIDA DIÁRIA

Acabei de tomar café, cedo para aproveitar meu dia de férias na ilha de Mosqueiro no Pará, uma colônia de pescadores onde nos integrávamos, pelo menos durante quatro meses nas férias escolares.

Soprava uma brisa fresca das bandas do poente, meia maré vazante, do alto do barranco avistei Adamor, Crisóstomo e Chico três intrépidos pescadores com as peles embrutecidas pela lida do dia a dia, enfrentando aquele marzão de água doce, arrastando sua canoa de falcas altas e por isso mesmo pesada, com destino à água.

O objetivo era buscar o peixe, alimento para suas famílias. Iam despescar o espinhel feito de várias cabaças de flutuação, uma corda de bacalhau onde eram amarrados vários anzóis iscados. Nas pontas, duas âncoras.

Deixavam de um dia para o outro. Quando eram felizes na pesca, tiravam o alimento da família e o restante era vendido aos ilhéus e veranistas. 

Para comunicar que tinha peixe para venda, usavam um pequeno chifre de boi com um furo onde sopravam ecoando um som alto e rouco pela ilha a fora.

Todos corriam para pegar a melhor parte. Para o final já não prestava, normalmente só a carcaça e a cabeça que serviam para sopa.

A vazante acabou, fenômeno que ocorre de 6 em 6 horas com 8 minutos de baixa mar e 8 minutos de preamar, começou a enchente quando a água corre do mar para dentro do rio. Nessa hora virou o vento Geral vindo do Leste com grande violência. 

O mar tornou-se perigoso demais.

A tarde foi se acabando dando lugar às sombras lúgubres da noite. 

As famílias dos pescadores começaram a chegar cheias de preocupação com o destino deles.

A noite caiu por inteiro. Nem sinal da embarcação.

O desespero tomou conta das famílias. Colocaram velas dentro de cuias e lançaram ao mar. Diziam que quando a cuia parasse na superfície da correnteza, ali em baixo no fundo da baia estava o corpo de um náufrago.

Nada aconteceu. As mães levando suas crianças pelas mãos não sabiam o que responder à pergunta inquietante delas:

- Cadê papai?

A Praia Grande chorou! A buzina do peixe silenciou!

Nunca mais soube-se do paradeiro de nossos queridos amigos.

Guardo suas imagens numa pelada disputada na areia da praia. É a maneira carinhosa que encontrei de jamais esquecê-los.

08/03/2021

Pedro Parente.




quarta-feira, 3 de março de 2021

CASA DE CABOCLO

 CASA DE CABOCLO


Dentre as histórias que ouvi meu amigo Flávio contar tem uma interessante que vou dividir com vocês.

Outrora quando a vida passava lentamente os recursos eram escassos, as pessoas tinham que se virar e fazer uso de sua intuição e criatividade para sobreviver.

Eram tempos românticos onde sobressaiam os cantores com suas vozes poderosas. 

A turma de compositores desconhecidos descia o morro com suas poesias muitas vezes escritas no papel de embrulhar pão e tentava a sorte oferecendo aos cantores de sucesso.

As transações eram feitas na porta da Gravadora Odeon na rua Visconde de Inhaúma, no Café Nice na avenida Rio Branco ou na loja de instrumentos musicais Guitarra de Prata na rua da Carioca.

Uma tarde já próxima ao final de semana, um lusitano aflito procurou e encontrou o Luís Peixoto próximo à Guitarra de Prata e lhe contou que estrearia uma casa de dança sábado na Tijuca e que pagaria por uma música inédita para sua inauguração. 

Luís confirmou lhe que por coincidência tinha a música pronta em sua casa., que não se preocupasse na hora combinada estaria lá. Tudo combinado preço e hora, despediram-se.

Luís correu atrás do Hekel Tavares que também era pianista e compositor e foram filar um piano numa casa que os vendia situada em frente ao Obelisco da Avenida Rio Branco e me parece que se chamava Carlos Weiss, próximo à Espaguetilândia. 

Começaram do zero, pois o Luís não tinha música nenhuma. A inauguração seria no dia seguinte.

No dia e hora marcados chegou o Luís com a música. Aproveitaram o nome da casa de dança e compuseram uma das joias da música popular brasileira CASA DE CABOCLO.


03/03/2021

Pedro Parente.


terça-feira, 2 de março de 2021

TIO GALILEU

 

 

TIO GALILEU.

Quando vim para o Rio de Janeiro, trouxe no bolso entregue pelo meu pai, o endereço de seu primo Gladstone que à época da guerra haviam servido como soldados no Regimento Sampaio.

Morava na Rua Farahni em Botafogo e formara-se em médico psiquiatra catedrático da UFRJ.

Durante os anos que ali morei, fiz parte de sua encantadora família. Era rotina nos finais de semana, atravessarmos as Barcas para Niterói e rumarmos para Iguaba Grande no interior do Estado do Rio, próximo à Lagoa de Araruama onde o Gladstone possuía uma boa casa de veraneio.

Gladstone era filho do Tio Galileu irmão de meu avô Garibaldi. Morava no Andaraí numa casa baixa.

Era um personagem do bairro, todos o admiravam e reverenciavam por ser muito receptivo e ágil, tanto que se orgulhava de saltar do bonde ainda em movimento.

Tio Galileu gostava de ser chamado de “Voltaire”. Era intelectual e ao contrário do resto de sua família não quis ficar em Abaetetuba, me parece que era piloto da Marinha Mercante e estabeleceu-se inicialmente em Fortaleza. Possuía dotes extra sensoriais, praticava o espiritismo e era vidente.

Certa noite, o Gladstone convidou-me a visita-lo em sua casinha. Recomendou-me que não falasse que seu irmão Garibaldi havia falecido.

Feita as apresentações, tio Galileu perguntou pelo Garibaldi, seu irmão. Informei-o de que estava bem e lhe mandava lembranças.

- Estranho! Há dias passou aqui, despediu-se de mim e comunicou que já estava indo!

Coisas do imponderável!

02/03/2021

Pedro Parente

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Dª CELUTA

 Dª CELUTA.

Tornou-se tradição aos sábados à tarde nossa pelada entre atletas de final de semana, para essa prática, escolhemos um campinho à margem direita do Córrego da Água Limpa no bairro operário da Vila Santa Cruz em São João del-Rei.

O campinho pertencia ao Siderúrgica Futebol Clube que o administrava precariamente com recursos de alguns abnegados. Muita dificuldade, tanta que era cercado apenas com arame farpado e a grama aparada pelo apetite dos vorazes pangarés de carroceiros associados.

Com o incentivo das peladas os vizinhos começaram a participar da torcida e também dos times escolhidos ali na hora. O movimento foi aumentando a ponto de vender chupe-chupe geladinho para a torcida o que já era um avanço.

Não existia vestiário, trocávamos de roupa debaixo de uma árvore de cedrinho sob olhares furtivos de algumas moças mais audaciosas. 

Após o jogo, suados, pulávamos todos no córrego que já naquela época, tinha cheiro de querosene vindo canalizado de um posto de gasolina na redondeza resultado da lavação de autos com produtos químicos

Certo dia um problema parou o jogo. 

A bola caiu no telhado da Dona Celuta moradora que fazia divisa com o campo. Ela prendeu a bola e xingou a todos nós ostensivamente. Alguns mais revoltados devolveram as agressões com palavrório rasteiro e aí tive que intervir.

- Calma!

Me dirigi até aquela velhinha negra com as faces sulcadas pelas intempéries de muitos anos vividos e ouvi suas queixas.

Convidou para que entrasse em sua minúscula casinha de dois cômodos. Uma sala de chão batido com um fogão de lenha, um catre e um espaço exíguo do banheiro com vaso sanitário. O banho que tomava era com água tirada manualmente do córrego e não tinha luz elétrica. A iluminação era feita por lamparina. 

Protegemos a casinha dela com alambrado de arame após recompormos o telhado, evitando que a bola não mais quebrasse suas telhas. 

Instalamos água encanada e luz elétrica vinda de nosso Padrão para não onerar a pobre senhora.

Certo dia, quando sentado em uma cadeira na pista do Posto de Gasolina conversando com meu amigo Kito, surge Dª Celuta com seu andar socado, com vestidinho de chita e um belo embrulho nas mãos adornados com um grande laço de fita dourado. Trêmula, entregou meu presente de Natal.

O melhor da minha vida!

Uma bela camisa social que guardei anos a fio como troféu por ter participado de um momento de alegria daquele doce e grata criatura, invisível aos olhos dos poderosos.

01/03/2021

Pedro Parente.





sábado, 27 de fevereiro de 2021

LUÍS PEIXOTO

 LUIS PEIXOTO.

Luís Carlos Peixoto de Castro (Niterói, 2 de fevereiro de 1889 —Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1973) foi um letrista, teatrólogo, poeta, pintor, caricaturista e escultor brasileiro. [1]. Era sobrinho por parte materna do compositor Leopoldo Miguez[2].

Peixoto foi parceiro de grandes personalidades da música brasileira como Custódio Mesquita, Chiquinha Gonzaga, Ari Barroso, José Maria de Abreu, bem como teve suas letras cantadas por Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Maria Bethânia e Gal Costa. Trabalhou em jornais e revistas como redator e caricaturista. Por 45 anos foi um dos nomes mais importantes do teatro de revista do Brasil, tendo produzido mais de cem peças do gênero [3][4]. (Wikipédia).

Flávio Carneiro da Cunha amigo inseparável na minha passagem pelo Rio de Janeiro. Boêmio que passava a noite admirando sua mulher Violeta Cavalcanti encantando plateias com sua voz maravilhosa de cantora da Rádio Nacional, com um detalhe nenhuma bebida alcoólica, somente cafezinho e Coca-Cola ela gostava de bons conhaques.

Contou-me que o Luiz Peixoto, possuidor de um talento incrível, trabalhava na revista Careta como caricaturista e colunista a época em que Washington Luiz era Presidente do Brasil.

Certa manhã Luiz chegou à portaria da redação da Careta no mesmo instante em que chegava um entregador de lavanderia com uma batina de padre católico e algumas estolas. Claro que o menino estava no endereço errado, mas o Luiz, muito sagaz, pagou pelo serviço e resolveu pregar uma peça em seu companheiro o presidente da revista.

Fantasiou-se de monsenhor e subiu até a sala do amigo. Lá chegando, meteu a mão na maçaneta e adentrou ao recinto, para surpresa sua encontrava-se ali nada menos que o Presidente do Brasil em uma visita de cortesia a fim de que as críticas da revista lhe fossem mais amenas.

Surpresos, porém três artistas de grande talento não perderam a fleuma!

Cumprimentaram-se e o Presidente num gesto de respeito fez uma genuflexão e beijou o anel na mão do Luís.

A longa conversa desenvolveu-se em tom altamente intelectualizado inclusive em temas religiosos para satisfazer a curiosidade do Presidente. 

Ao final, Luís abdicou de ofertas para melhoria de sua paróquia, despediu-se.

Às pressas trocou de traje e sumiu da redação antes que o Presidente o flagrasse em traje de passeio.

No dia seguinte voltou ao trabalho e encontrou-se com seu amigo diretor da revista que entre risos disse que o Presidente havia ficado encantado e enviava recomendações ao MONSENHOR PEIXOTO!


27/02/2021

Pedro Parente



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

PADRE LOPES


 PADRE LOPES

Numa pacata cidade do interior de Minas chamada São Sebastião da Vitória distrito de São João del-Rei, morou o Padre Lopes.

Uma pessoa lendária, mesmo porque fora responsável pela ampliação da capela tendo a transformada em matriz por autorização do bispo de Mariana.

Era uma unanimidade entre todos cristãos ou não, pela sua simpatia e comunicabilidade!

A casa paroquial a qual habitava era em frente a igreja. Confortável onde atendia os membros carentes da comunidade e também seus amigos e comensais que como ele eram apreciadores das boas bebidas e comidas. Era tradicional o frango ao molho pardo acompanhado por uma boa pinga local sem rótulo e tampada com sabugo de milho.

Muitas vezes as espórtulas destinadas à igreja lhes eram trazidas em forma de galinhas, porcos e outros animais domésticos assim sendo sua mesa era sempre farta.

Eis que em determinada época a inexorável marcha do progresso mostrou sua presença atingindo a cidadezinha calma e pachorrenta.

Foram instaladas torres altíssimas para uso da Embratel como repetidoras de sinal de TV. No final das torres, lá em cima já entre nuvens, um circulo enorme de metal côncavo deixou a população intrigada.

A cidade que já era calma, parou. Todo mundo com o olhar fixo naquela estrutura gigantesca. 

Os diagnósticos eram os mais variados. Alguns até diziam que era pra localizar discos voadores.

Mas, como em todo lugar tem alguns mais observadores e críticos que outros, os dois compadres se encontraram na porta do botequim e enquanto mastigavam pão de queijo, confabulavam num bom dialeto mineiro do interior.

- Ô Sô! Esse padi Lopes é danado! Ninguém agora nos arto da montanha, podi dizê qui num uviu a missa dele, ó o tamanho dos arto-falante qui ele botô!

Vida que segue!

28/01/2021

Pedro Parente


domingo, 24 de janeiro de 2021

TRANSPLANTE

TRANSPLANTE
Corria uma história lá entre a turma da equina da qual eu participava, que um certo morador da cidade muito vaidoso, de repente ficou careca. 
Para ele foi a morte. Não se conformou. 
Resolveu implantar cabelos com o intuito de pelo menos, disfarçar a calvície, para isso tornou-se econômico até em demasia e passou a ser qualificado como “Careca Pão Duro”.
Após muito tempo de sacrifício, conseguiu amealhar o capital suficiente para a execução do transplante, porém, esse procedimento não era feito em sua cidade e teria que ser em Juiz de Fora que possui mais recursos técnicos.
E lá se foi nosso careca entusiasmado com a vitória de ter conseguido o dinheiro e voltar cheio de cabelos na testa sobre os olhos.
Internou-se na clínica e lá ficou o tempo necessário para o implante e adubagem na expectativa das mudas vicejarem. 
O tempo exigido passou e algumas toiças já se consolidavam no couro cabeludo quando recebeu a visita de um amigo da sua cidade.
De alta programada para a parte da tarde e na expectativa de economizar o dinheiro da passagem de ônibus, convenceu o amigo a espera-lo.
De tarde, após a alta da clínica, montaram em uma Brasília usada e pegaram a estrada rumo à casa.
Viagem tranquila, conversa animada, o motorista distraiu-se e deu um golpe agudo na direção do veículo.
No acidente, o recém implantado desmaiou com um corte na cabeça exatamente no local do transplante.
Desacordado, deu entrada no hospital. 
Obedecendo ao procedimento de rotina para esses casos, o enfermeiro imediatamente, munido de um aparelho de barbear e sabão com espuma, raspou todos os cabelos em volta do ferimento.
Já suturado após o atendimento, ainda na maca, despertou.
Levou a mão a cabeça. Sentido o enorme curativo no local do implante, desmaiou novamente.
Salvou a vida, mas perdeu o dinheiro a vaidade e continuou como “Careca Pão Duro”. 
A vida é madrasta!
23/01/2021
Pedro Parente

sábado, 16 de janeiro de 2021

PASTELARIA OK

 PASTELARIA OK.


Em São João del-Rei no quarteirão da “muvuca” onde antigamente, devido à concentração de bons bares e da Cantina Calabresa, havia um em especial, que atraia a atenção das pessoas a Pastelaria Ok. Nome sofisticado para a época quando não era comum estabelecimento com expressões de outras línguas em seus anúncios. Um baiano desavisado achou que OK era Zero Kilometro!

Ali era uma comunidade formada por pessoas de diversas qualificações isentas de preconceitos e por isso mesmo todos viviam em harmonia.

O estabelecimento era pequeno. Tipo uma garagem de automóvel, um retângulo de porta larga. Um balcão pintado de azul marinho e fechado na frente por vidros transparentes que serviam com expositor, aliás, ali só me lembro de ter visto uma caixa de chicletes que permaneceu intacta até o fim do estabelecimento. Nunca foi consumido um único Chicletes os frequentadores não faziam uso a preferências era o pastel. Seis pessoas lotavam o bar e pela marca do cotovelo do freguês, já se sabia de quem era aquele lugar

Tornou-se famoso pela qualidade dos pastéis fritos na hora, apenas de queijo, carne moída e pela pinga com mel feita pelo proprietário Pedro Pasteleiro que passou a ter a alcunha como sobrenome.

Cidadão correto, trabalhador, falava baixinho e de pouca conversa, porém muito respeitoso e atencioso. Abria o estabelecimento cedinho e começava sua lida esticando a massa em um par de rolos mecânico até ficar finíssima. Trabalhava sem ajudante, eventualmente seu pai. Chegava pilotando sua Rural impecável. Até hoje deve estar do mesmo jeito.

Devido sua posição no quarteirão, possuía uma peculiaridade, servia de ponto de observação das moças descuidadas que saíam do colégio das freiras com seus uniformes de saia de alças e blusa que ao chegarem ali, eram surpreendidas por um vento indiscreto colocando suas vestes íntimas expostas aos olhares cobiçosos dos transeuntes e frequentadores do bar.

Entre os frequentadores haviam dois padres. Um negro alto e forte, óculos de grau verde com arco de casco de tartaruga, admirado e querido de todos. Só usava batina cinza, aliás, raridade. O amigo dele e nosso também, era mais requintado, andava à paisana e fumava com piteira.

Num desses dias passou caminhando displicentemente pela calçada do bar, uma morena de vestido curto e o corpo escultural em cima de dois sapatos de salto alto provocativa deixando a moçada alucinada. Logo todos correram para a porta da pastelaria a fim de curtir mais um pouquinho aquele show de sensualidade.

Os dois vigários, solidários com a turma também foram “pescoçar” aquela visão que poderia ser da virgem, ou não!

Sem perceber, a moça virou a esquina e desapareceu.

Os dois sacerdotes se entreolharam e um deles falou, em bom “minerês”:

- Uai cumpadi. Si num tivé céu nós levô manta!

- Pasteleiro. Bota mais uma!

16/01/2021

Pedro Parente.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

REGATA

 REGATA

No final da década de 50, Belém vivia tempos românticos embalada por canções inesquecíveis e com resquícios de cidade europeia.

O cais do porto, havia sido construído por empresa inglesa de capital privado e com direito à exploração do mesmo sob nome de “Port of Pará”. 

Com essa expansão vieram algumas modernidades entre elas novos navios vindos de vários países, pois nossa indústria naval de grande calado, praticamente não existia. 

Nessa leva vieram dos Estados Unidos grandes barcaças de dois andares movidas por rodas d’água instaladas na popa que foram protagonistas de muitos filmes feitos no rio Mississipi chegadas por lá em 1850.

Eram de baixo calado e por isso mesmo não corriam risco de encalharem nos rios amazônicos de baixa profundidade.

Quando chegaram, o brasileiro não perde o censo de humor, às apelidaram de “chatas” pois não tinham quilha, o fundo delas era liso.

As regatas de barcos a remo, esporte trazido, também pelos ingleses e absorvidos pelos brasileiros, ali em Belém, as datas para competições eram combinadas de acordo com a lua e a força da maré que deveria começar a encher pela manhã por volta das nove horas.

Pois bem, cada clube alugava sua “chata” a enfeitava toda, distribuía os convites. No dia marcado elas ancoravam próximo a raia da competição e começava a festa. 

Bebidas a vontade, as pessoas muito bem vestidas bailavam ao som da orquestra de baile que dava o chame do acontecimento. Quando os páreos estavam correndo, faziam soar seus apitos a vapor dando impulso aos atletas. Uma festa!

Numa dessas regatas nossa guarnição composta de quatro remadores e um timoneiro, disputava um troféu havia dezenove anos e seria posse definitiva para o meu clube do Remo no caso de vitória.

Meu pai conseguiu tirar minha mãe de casa e a levou em seu barco para assistir minha participação visto que ele fora atleta emérito do Remo.

Nossa guarnição estava na “ponta dos cascos”, porém, eu iria correr pela primeira vez na voga, posição do remador que dá ritmo às remadas na embarcação além do mais com o remo de bombordo ao qual não tinha hábito. Conclusão: inexperiente.

Demos a largada e eu entrei num ritmo que não era o nosso, tentando deixar as reservas físicas para a chegada.

Quando percebi não tinha ninguém atrás de nós, estávamos fechando a raia. Acelerei o ritmo, ultrapassamos alguns, mas não deu para chegarmos em primeiro lugar.

Foi a maior desilusão da minha vida! Após 62 anos ainda sonho com isso até hoje. Chorei no rebocador até chegar o páreo seguinte.

Fomos correr contra as mesmas guarnições adversárias e mais uma representando Manaus.

Demos a largada no ritmo ao qual estávamos acostumados. Chegamos em primeiro lugar deixando o segundo colocado havia uma distância de cinquenta metros.

O esporte é uma escola. Nos ensina a perder também.

Pela vida afora, acumulei várias derrotas e parcas vitórias, mas não perdi a cabeça! 

Aprendi muito!

14/01/2021

Pedro Parente







quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

2020

 2020


Ano atípico!

Não sei a quem responsabilizar. 

Não sei se alguma energia negativa cobriu nosso planeta em um eclipse de tristeza dizimando nossa população e como é praxe, penalizando cruelmente os menos protegidos pela sorte. 

No nosso Brasil as consequências foram maiores, pois além de perdermos mais de duzentos mil irmãos, fomos castigados com o Governo de um verme genocida que destruiu todas as conquistas civilizatórias adquiridas ao longo de vários anos à custa do suor, sangue e lagrimas dos brasileiros.

Enquanto não tínhamos petróleo os olhos gananciosos dos “piratas do mundo” não nos enxergavam, porém como prêmio ao esforço de nossos cientistas da Petrobras que desenvolveram tecnologia própria, descobrimos o pre-sal uma das maiores reservas petrolíferas do mundo.

A partir daquele momento a cobiça desse tesouro inestimável por parte dos estadunidenses, tornou-se o objetivo principal de sua tomada.

Contando com a conivência de maus brasileiros, fardados, togados e civis, arquitetaram um golpe, depuseram a presidente honrada e colocaram em seu lugar um traidor rábula comprometido com a estratégia de Washington.

Em seguida numa eleição fraldada, a burguesia burra substituiu o rábula por um energúmeno.

De um Brasil pujante cuja economia disputava o quinto lugar pari passu com o Reino Unido e França foi defenestrada para décima segunda no ranking global.

Tudo contra nós!

Nunca imaginei na minha vida assistir um general do “glorioso” Exército Brasileiro ser humilhado em público por um oficial subalterno que fora expulso do quartel por terrorismo, chamando-o de “meu gorducho predileto”.

Enquanto o governo da Argentina libera a canabis, o aborto, taxa as grandes fortunas e vacina sua população, nós insignificantes, vamos assistindo a marcha macabra de nossa população rumo à sepultura por indiferença e inoperância de nossos poderes constituídos.

O Brasil terá que ser repensado. 

O ensino terá que ser modificado em sua base. As escolas terão que mostrar quem foram nossos heróis e não exaltar em seus compêndios os invasores que promoveram verdadeira chacina nas populações habitantes do nosso continente.

Mostrar a covardia que foi cometida com os negros arrancados de suas terras na África e vendidos como escravos aos senhores de engenho.

As escolas militares tem que mudar seu método de lavagem cerebral daqueles jovens patriotas que ali prestam exames com o objetivo de defender seu país e se transformam em algozes.

Com uma despesa inútil de mais de R$ 100 bi anuais para as Forças Armadas sem guerrear com ninguém e sem cumprir sua missão de defender nossas riquezas e território pátrio poderiam desocupar seus quartéis e transformá-los em universidades, escolas ou hospitais prestando desta maneira serviço muito mais relevante à população brasileira.

Aos 80 anos, decepcionado deixo para meus filhos, um país destruído pela insanidade do Presidente sob aplausos de uma plateia inconsequente.

Salve-se quem puder! 

30/12/2020

Pedro Parente


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

PÉROLAS MUSICAIS

PÉROLAS MUSICAIS Hoje acordei com uma saudade amiga e a imagem inesquecível de certa noite no programa que eu transmitia através da Rádio São João, chamado Pérolas Musicais. Tive o privilégio de ter em minha volta três amigos extraordinários, Não pelo poder e pela força do capital mas sim pela generosidade, simplicidade e habilidade em dedilhar seus instrumentos. Naquele momento deixava que os acordes produzidos pelo Chico, Renato e Cipó inebriassem as ondas sonoras que se espalhavam pelas casas humildes e no aconchego das montanhas de Minas, num velho aparelho de rádio que captasse ondas curtas num canto da cozinha abraçado pelo calor do fogão de lenha. Fui muito feliz e privilegiado por aquele momento. Restou a lembrança e amizade dessas pessoas generosas que tive o prazer de desfrutar de suas companhias. Hoje restou saudades! A peste juntou as famílias confinando-as , mas afastou os amigos. Que Deus os proteja. 14/12/2020 Pedro Parente