LOTO ZOOLÓGICA
O bar da Dª Ester era nossa catedral e ela nossa padroeira.
Naquele ambiente todos os dias era uma festa, algumas efêmeras outras duravam o dia inteiro, enquanto o bar permanecesse aberto.
Ali conheci um cidadão que me encantou à primeira vista.
Moreno escuro de carapinha branca faces sulcadas pelas marcas severas testemunhas das lutas da vida imposta aqueles menos aquinhoados pela sorte. Voz frágil pelo peso da idade, humilde, permanecia calado no seu canto e só respondia o que lhes perguntavam. Tinha muita dificuldade em caminhar, para ajudá-lo apoiava-se em duas muletas de madeira sob os braços. Aquilo o maltratava muito. Penalizados, nos cotizamos e lhes doamos uma cadeira de rodas. Retribui-nos com um tímido sorriso inibido pela falta de dentes.
Cravei no fundo do meu coração a imagem daquele homem como o símbolo da bondade e resignação. Nunca procurei saber se tinha virtudes e defeitos.
Para sua manutenção e despesas caseiras tornou-se “cambista” do inocente “jogo do bicho” escrevendo apostas aos que lhe procuravam.
Era praxe, principalmente aos sábados vários “cambistas” passarem no bar porque sabendo que eu e Dudu estávamos ali, uma apostinha sairia aumentando suas comissões.
Foi aí, num desses sábados, seu Juca como o chamávamos, estava lá sentadinho na sua cadeira de rodas esperando que os operários na hora do almoço fossem fazer sua fezinha jogando uma moedinha ou fração aventurando a sorte, entrou um policial fardado conhecido de todos nós e com a arrogância peculiar à maioria, humilhou aquela criatura.
- Não jogo na sua mão. Você não paga!
Aquilo nos revoltou. Levantei-me e para rebater a afronta do policial, enfiei a mão na carteira e tirei a maior cédula que tinha e entreguei ao seu Juca.
- Jogue 561 na cabeça!
O policial me olhou raivoso e saiu pisando duro. Nossa mesa comemorou.
A conversa continuou animada. Acompanhando o delicioso mocotó pinga e cerveja desciam uma após outra. Em seguida passou lá o “Bigode” cambista amigo que vinha de bar em bar recolhendo apostas do “bicho.”
Direto na nossa mesa.
O Dudu já era manjado, jogava sempre 047 e eu 561. Fizemos nossas apostas e subimos para o Centro. Paramos no Kibon e veio o “Jacaré” também cambista, e com ele apostamos.
Separei-me do Dudu, pois tinha compromisso com a pelada de sábado e fui jogar.
Após o jogo, no bar do Nonô Barbeiro, comemorávamos o resultado da pelada, não sei se vitória ou derrota, com um pernil assado rodeado dos “atletas”.
De repente parou um taxi. Todos voltaram a atenção para o carro. Lá de dentro salta o Dudu, vermelho empolgadíssimo com um jornal dobrado à mão, e aos berros:
- Pedrão estamos ricos! 561 na cabeça!
Receemos aquele monte de dinheiro. Aos cambistas demos um bom agrado. Seu Juca não queria receber. Insistimos e levou um “pacotinho” de grana.
Uns quinze dias passados estávamos eu e Dudu na nossa catedral comentando que estávamos duros. Onde iríamos arranjar um empréstimo?
Pela primeira vez seu Juca intrometeu-se na conversa:
- O dinheiro que vocês e deram está guardado pra vocês lá em casa!
Absolutamente!
04/06/2020
Pedro Parente
O CARECA.
Houve um tempo em que o lotação Estrada de Ferro/Leblon fazia ponto em frente ao Hotel Ipanema do Jesus casado com a Fany morador do B2 905 (?).
O Hotel era em frente ao Jorna na esquina.
Os motoristas vinham fazer lanche ou tomar um café, no bar do Seu Antonio debaixo do A2.
Entre eles havia um "gente boa", já meio coroa que se chegou na rapaziada e gostava de arrastar um papo da malandragem tipo Bezerra da Silva.
Muito legal o cara! Logo levou o apelido de "Careca".
Eu e Maurício curtíamos muito ele.
Numa noite erramos a mão no bar do Seu Antonio que era nosso reduto principalmente no final do mês onde os trocados já haviam terminado e fomos ficando.
Não tínhamos alternativa! Dali para a cama.
Eis que entra o Careca pra tomar café.
- Senta aqui! Vamos tomar uma!
- Só vim tomar um café pois já vou recolher. Tenho que ir pra garagem em Vicente Carvalho!
- Vou tomar só um conhaque!
- Um conhaque ninguém toma, principalmente quando senta se à mesa. Conhaque é pra tomar em pé no balcão. E assim foi um, mais um e outro.
- Lá pras tantas Seu Antonio já abrindo a boca querendo dormir, sentimos que estava na hora de fechar a conta.
- Eu e Maurício ainda tínhamos gás pra queimar e juntos não ia dar certo.
- Tínhamos uma amiga que gostava de aventuras perigosas. Era seu prazer. Desprovida de preconceitos. Gostava de viver no fio da navalha.
- Sempre disponível a convidamos para irmos passear de lotação. Aceitou imediatamente. Era nossa amiga mas eventualmente nos amava. (Quero fazer um aparte: o Maurício não estava namorando ninguém).
- Pegamos um litro de rum e uma mortadela fatiada, fiado no seu Antonio e fomos fazer turismo em Vicente de Carvalho já de madrugada.
- O Careca fechou a porta do lotação e eu e Maurício fomos revezando satisfazendo os prazeres da moça. Quando descansava dava uma tragada no rum e mandava pra dentro um pedaço de mortadela.
- O Careca dirigia lentamente e ia contando sua vida sofrida para o que estava de plantão ao seu lado.
- Olha! Vicente de Carvalho é longe! Até hoje não sei para que lado fica.
- Finalmente chegamos à garagem.
- Já era muito tarde ou cedo? Chegou a vez do Careca.
- Não sei porque falou que já era muito tarde e a patroa estava esperando, saiu batido mas antes avisou ao vigia que nós estávamos lá dentro do lotação.
- Acabamos de tomar o rum, destruir a mortadela e dormimos ali mesmo.
- Dia seguinte. Sol a pino. Saímos os três sob o olhar de censura dos motoristas chegando pra trabalhar.
- E agora? Onde estamos? Não fazíamos ideia!
- Sem nada no bolso. Duro num local inimaginável. Garotão da Zona Sul em Vicente Carvalho? Não dá! Hoje seria um mico.
- Só tem uma saída!
- TAXIIIIIIIII ! Nos leva no Leblon!
- Seu Antonio me dá um dinheiro pra eu pagar o táxi.
- Na hora!
- Beijinho, beijinhos e até já!
- 03/05/2020
- Pedro Parente
