sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A CORDA

A CORDA

Antigamente quando o Rio ainda era uma cidade pequena, serena, mas já muito romântica e boêmia. Poucas pessoas pelas ruas e podiam-se identificar os cidadãos pela hora que estavam nela. Quer dizer os da madrugada eram os notívagos, gigolôs e prostitutas e entre estes se misturavam alguns padeiros e guardas noturnos.
Pois bem, o bonde parava à meia noite. O último era chamado de “cristo”. Depois daquel
e horário, os boêmios de bairros mais afastados não tinham como voltar para casa. Como fazer?
Havia no centro do Rio lá pela Gamboa um bairro próximo à zona boêmia onde resistiam umas construções antigas que davam o nome de “cabeça de porco”. Normalmente essas construções possuíam um corredor muito comprido contíguo a casa. Sempre habitado por portugueses de bigodes grossos, tamancos, camisetas e a calça enroladas até o meio das pernas, prontos para a lida.
Para defenderem um dinheiro extra, colocavam um “banco corrido” de tábuas compridas com dois suportes de ferros fincados no chão, um de cada lado,  uma corda que ia de um ao outro e  alugavam para aqueles que perderam o “cristo” passarem o resto da noite.
O cidadão entrava, sentava-se no banco e debruçava na corda que passava à sua frente. O próximo que chegava o fazia com sutileza para não balançar a corda e despertar os outros que ali descansavam.
Pela manhã o português, sem qualquer cerimônia, desatava o nó falso e berrava: Chega de dormir! Está na hora de trabalhar vagabundos!
A moçada desprevenida tomava aquele susto e alguns iam de cara ao chão.
O português recebia a estadia e oferecia um tanque de cimento para a moçada lavar o rosto. Alguns, mais sofisticados, tinham um pente amarrado em um barbante e um caco de espelho para o freguês poder retocar a maquiagem.
Eram tempos felizes!
Segundo nosso querido amigo Arthur – o Tutuca - era freguês de “carteirinha” da corda.
Pedro Parente

25/11/14

segunda-feira, 9 de junho de 2014

NÃO HAVERÁ CARNAVAL

Assim como não haverá COPA, não haverá também, CARNAVAL. 

O SAMBÓDROMO será transformado em um grande hospital

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O Assalto

O ASSALTO.
Todo bar tem sua peculiaridade. Lá no bairro do Segredo o Bar do Carlito é conhecido pelo rigor de seu funcionamento, principalmente na hora de fechar.  Deu a hora de fechar, não adianta insistir, o freguês recebe a conta num pedacinho de papel muito bem cortado, e fim de papo, pois não quer sacrificar sua mãe que o ajuda com seus deliciosos tira-gostos. O Carlito é uma figura correta e sistemática. A higiene é irretocável. Seu pai e sua esposa, admiráveis, formando uma família exemplar.
O bar não é grande, e é costume a todos os freqüentadores que chegam cumprimentar um por um com um forte aperto de mão.
Pois bem, ali freqüenta uma turma eclética. A maioria de jovens senhores bem sucedidos amigos de longa data, tanto que há mais de dez anos criaram a Turma do Buneko que se reúne todos os meses na residência ou no sítio dos confrades, para comemoração dos aniversariantes.
Segundo “Paulo Buda” um dos decanos: “Tem dias que este bar está um verdadeiro hospício”. Impossível segredo. Todos participam das conversas.
Bar é lugar de gente alegre. Raro encontrar alguém triste e macambúzio. A ordem é alegria.
Num fim de tarde, já escuro, os circunstantes foram surpreendidos por um assalto a mão armada produzido por dois meliantes que chegaram de bicicleta de modelo obsoleto que servia de transporte para os dois. Por aí já se percebe o nível!
Colocaram o revólver na cabeça do primeiro que estava sentado à porta. Segundo o Rodrigo, pelo frio do cano, tratava-se de um “treisoitão”.
Anunciaram o assalto. Ninguém deu papo e a conversa continuou em voz alta.
Meio que desmoralizado, o pivete berrou um palavrão e repetiu que se tratava de um ASSALTO.
A turma atendeu e dedicou o merecido respeito ao ato.
O primeiro a ser assaltado puxou a carteira cheia de dinheiro e na frente do pivete tirou “cincoentinha” e passou ao coletor de espórtulas. Satisfeito dirigiu-se ao próximo. Naldinho, nosso querido amigo de idade provecta com a memória prejudicada pelo mal de Alzheimer, ao ser pressionado pelo bandido, disse: - Não vou dar mais nada. Hoje já dei esmola!
Desconfiado o cara dirigiu-se ao nosso intrépido Comandante de Longo Curso conhecido carinhosamente como Batata. Apontou o revólver e o Batata no auge das suas lucubrações, pensando tratar-se de um isqueiro, prontamente tirou um cigarro do bolso e levou-o até a ponta do cano no intuito de acendê-lo. O cara quase pirou!
Carlito sorrateiramente, esgueirando-se pelo chão arranjou um jeito de comunicar-se com sua mulher na parte de cima do bar que imediatamente, da janela, alardeou que chamaria a polícia.
Ato continuo, os moleques correram e montaram na bicicleta. O comparsa que dirigia o veículo, ainda xingou com um palavrão o garupeiro que quase o derrubara ao saltar afobado na garupa.
Saíram disparados na medida em que a velha bicicleta agüentasse.
Coisas de São João!
Pedro Parente
26/04/2014

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Dei-lhe o nome de FELICIDDE.
Pedro Parente
10/05/2014
 

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Gratidão

GRATIDÃO.
A vida é feita de coisas singelas, que muitas vezes nos passam despercebidas.
Na minha vida de longa estrada, aconteceu um fato muito interessante.
Quando me mudei para cá, casei-me e constitui minha família, sonhava em morar na Estrada Velha das Águas Santas, hoje Avenida Luiz Giarola.
Era um campo em declive, sem qualquer atrativo, porém, desde a primeira vez que por lá passei, alguma coisa me despertou a atenção e o coração bateu mais forte.
Pensei comigo: - Gostaria tanto de ter uma casa aqui neste local!
Tornou-se hábito passar na casa do Seu Juca Gali e sua agradável esposa, saborear um frango ao molho pardo e rebater com saboroso doce de leite. Tudo à sombra das mangueiras. Em seguida prosseguia por aquela estrada de terra, empoeirada e passava em frente ao terreno que tanto me impressionava.
O mundo gira e as coisas acontecem.
Certo dia meu amigo Zequinha que transaciona imóveis, ofereceu-me o tal terreno, pois o proprietário estava disposto a vendê-lo.
Nem acreditei. Fechei na hora.
Em seguida comecei a obra.
Foi levantado um cômodo tosco para guardar o material da obra e, principalmente, proteger o cimento da umidade.
Enquanto durou a obra ficou ali aquele humilde casebre que ninguém lhe dirigia o olhar. A seu lado via erguer-se uma casa nova a quem todos dedicavam atenção e admiravam. Após muito sacrifício a casa nova ficou pronta. Pintada de branco, aí que sobressaia a feiúra daquele depósito de cimento com as lajotas à mostra.
Ao entregar a obra, o responsável falou-me que só restaria derrubar o casebre que servira de proteção para o material da construção e limpar a área.
Protestei. Não deixei derrubar. Por princípio não gosto de desperdício.
Pedi que arrumasse o casebre. Assim foi feito. Colocou telhado colonial. Aumentou dois quartos e uma varanda. Durante anos ficou ali cheio de entulhos.
Recentemente foi desocupado e reformado.
A vida como ela é.
Hoje a casa que era nova está velha e o casebre resplandecente recebendo os olhares e atenção dos que chegam.
Conclusão. Moro nele. Todas as vezes que chego, sinto seu agradecimento por não ter deixado que o demolissem.
De minha parte, até me emociono. Tenho a sensação de ser acolhido pelo seu abraço carinhoso.
Não tem mansão que substitua a emoção de entrar e ser acolhido por um afetuoso abraço da minha pequena casa.
Dei-lhe o nome de FELICIDDE.
Pedro Parente
10/05/2014
 

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Represa de Camargos

REPRESA DE CAMARGOS
Meados dos anos 70, meu sogro adquiriu um terreno às margens da Represa de Camargo.
Não havia nada no terreno. Era apenas um campo de terra ruim e a estrada de acesso muito rudimentar.
As casas de veraneio, também, muito raras, mas a represa estava ali, exuberante, pois estávamos no meio do ano, exatamente quando ela atinge sua cota máxima.
A visão que tive foi incrível, um pedacinho do céu. Silêncio profundo e aquele lago de águas calmas e claras a refletir a luz e o azul do céu. Lindo!
Finalmente um lugar para eu praticar algum tipo de esporte aquático, dado às minhas origens amazônicas. Pensei imediatamente em um barquinho a vela.
Ainda com minha família em formação e as filhas pequenas, achei que ali seria o lugar próprio para nossos fins de semanas. Inicialmente íamos aos domingos por não ter onde alojar minha família. Logo depois, ali foi construída uma modesta casa que nos deu condição de pernoite. Começamos a ir no sábado, algumas vezes na sexta.
Era uma alegria. Tínhamos a companhia invariável da Neuzinha e Pedro Spinelli com suas filhas Mirella e Adriana contemporâneas de Lia e Nara.
Foram dias muito felizes. Inesquecíveis!
Resolvi então, comprar meu barquinho a vela. Liguei para meu velho amigo Duek lá no Rio, pois conhece tudo por lá. Levou-me a uma loja especializada na Rua da Passagem. Chamava-se King não sei mais o que...
Coloquei o barco sobre a Brasília. Carlos ficou no Rio e combinamos umas velejadas no fim de semana seguinte.
Não deu outra! Chegamos cedo à Represa junto com as famílias. Tomamos umas e outras e resolvemos enfunar a vela.
Soprava uma brisa calma vinda do nascente. Como o barco era pequeno e possuía vela grande, deslizava com facilidade com empuxo de qualquer vento.
A represa estava em sua cota máxima. Navegávamos tranquilamente no meio do lago com vento no través. Ao nos aproximarmos dos cabos de alta tensão que passam sobre a represa e por ela estar no limite, a distância da água para os cabos fica pequena.
A mastreação de alumínio e a vela de nylon colocavam nossas vidas em risco. Sem perceber estávamos indo rumo ao incinerador. Viraríamos torresmo.
Quem nos salvou foi a vela de Nylon que zoando denunciou a indução da alta tensão.
Percebemos o perigo, imediatamente cambei o bordo, saímos dali e fomos tomar uma refrescante e calmante cerveja.
Escapamos por pouco. Ufa!
Pedro Parente
04/06/2014


O VELEIRO
Lá pelos idos de 1975, meu sogro comprou um terreno às margens da Represa de Camargo. Adorei a idéia, pois nascido e criado nas águas turvas dos rios que banham Belém e Mosqueiro, sentia muita falta, nas montanhas de Minas, de um lugar onde pudesse praticar meus esportes aquáticos. Optei pela vela.
Liguei para meu bom amigo Carlos, no Rio. O amigo mais antigo, até hoje, que deixei por lá quando ali morei por alegres dez anos. Fizemos uma boa dupla a tal ponto que namorávamos duas irmãs. Era dos “Anos Dourados”. O Rio de Janeiro exalava romance. Os casais ainda dançavam abraçados e quando se amavam bailavam “de rosto colado”. Isto significava comprometimento.
Fomos até uma loja especializada em barcos na Rua da Passagem em Botafogo e lá encontramos um barco de fibra com vela de nylon para duas pessoas. Lindo! Casco laranja, acabamento branco e a vela com faixas largas em diagonal, laranja e branco. Colocamos em cima da minha Brasília que possuía um suporte para carga, porém o barco excedia um pouco o tamanho do carro. Pelas leis do trânsito isso é proibido. Teria que ser sinalizado com um pano vermelho. Resolvi assumir o risco e zarpei pegando a estrada.
Na primeira “barreira” policial, fui intimado a parar. O policial alertou-me que não poderia prosseguir sem sinalizar o excesso da carga com um pano vermelho.
Problema! Onde vou comprar um pano vermelho? Lembrei-me de uma cueca escarlate que estava na minha maleta. Naquela época usava, pois eu não era nenhuma odalisca deslumbrada. Abri a mala e dependurei a cueca na popa do barco. O policial que a tudo assistia com olhar inquisidor, perguntou: - O que é isto? Respondi-lhe: cueca!
Botou a mão no queixo, examinou com cautela, até fez menção de apalpá-la, mas desistiu, pois não sabia se tinha sido usada.
Aí decidiu com firmeza:
- Cueca pode, devolvendo meus documentos, despediu-se:
- Boa viagem!
Pedro Parente
1º/06/2014

sábado, 26 de abril de 2014

O ASSALTO

Turma do Buneko: 125º ENCONTRO DA TURMA DO BUNEKO - MARÇO DE 2014 

O
ASSALTO
.



Todo
bar tem sua peculiaridade. Lá no bairro do Segredo o Bar do Carlito é conhecido
pelo rigor de seu funcionamento, principalmente na hora de fechar.  Deu a hora de fechar, não adianta insistir, o
freguês recebe a conta num pedacinho de papel muito bem cortado, e fim de papo,
pois não quer sacrificar sua mãe que o ajuda com seus deliciosos tira-gostos. O
Carlito é uma figura correta e sistemática. A higiene é irretocável. Seu pai e
sua esposa, admiráveis, formando uma família exemplar.
O
bar não é grande, e é costume a todos os freqüentadores que chegam cumprimentar
um por um com um forte aperto de mão.
Pois
bem, ali freqüenta uma turma eclética. A maioria de jovens senhores bem
sucedidos amigos de longa data, tanto que há mais de dez anos criaram a Turma
do Buneko que se reúne todos os meses na residência ou no sítio dos confrades,
para comemoração dos aniversariantes.
Segundo
“Paulo Buda” um dos decanos: “Tem dias que este bar está um verdadeiro
hospício”. Impossível segredo. Todos participam das conversas.
Bar
é lugar de gente alegre. Raro encontrar alguém triste e macambúzio. A ordem é
alegria.
Num
fim de tarde, já escuro, os circunstantes foram surpreendidos por um assalto a
mão armada produzido por dois meliantes que chegaram de bicicleta de modelo
obsoleto que servia de transporte para os dois. Por aí já se percebe o nível!
Colocaram
o revólver na cabeça do primeiro que estava sentado à porta. Segundo o Rodrigo,
pelo frio do cano, tratava-se de um “treisoitão”.
Anunciaram
o assalto. Ninguém deu papo e a conversa continuou em voz alta.
Meio
que desmoralizado, o pivete berrou um palavrão e repetiu que se tratava de um
ASSALTO.
A
turma atendeu e dedicou o merecido respeito ao ato.
O
primeiro a ser assaltado puxou a carteira cheia de dinheiro e na frente do
pivete tirou “cincoentinha” e passou ao coletor de espórtulas. Satisfeito
dirigiu-se ao próximo. Naldinho, nosso querido amigo de idade provecta com a
memória prejudicada pelo mal de Alzheimer, ao ser pressionado pelo bandido,
disse: - Não vou dar mais nada. Hoje já dei esmola!
Desconfiado
o cara dirigiu-se ao nosso intrépido Comandante de Longo Curso conhecido
carinhosamente como Batata. Apontou o revólver e o Batata no auge das suas
lucubrações, pensando tratar-se de um isqueiro, prontamente tirou um cigarro do
bolso e levou-o até a ponta do cano no intuito de acendê-lo. O cara quase
pirou!
Carlito
sorrateiramente, esgueirando-se pelo chão arranjou um jeito de comunicar-se com
sua mulher na parte de cima do bar que imediatamente, da janela, alardeou que
chamaria a polícia.
Ato
continuo, os moleques correram e montaram na bicicleta. O comparsa que dirigia
o veículo, ainda xingou com um palavrão o garupeiro que quase o derrubara ao
saltar afobado na garupa.
Saíram
disparados na medida em que a velha bicicleta agüentasse.
Coisas
de São João!
Pedro Parente
26/04/2014

sexta-feira, 20 de maio de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

AJUDA AO PLANETA

AJUDA AO PLANETA

Nasci em 1940.

De lá para cá muitas coisas mudaram. Umas para melhor e, a maioria, para pior.

A rua era lugar de criança brincar, jogando pelada com bola de meia, soltando pipa, bolinha de gude e, como disse Ataulfo Alves na sua linda melodia Tempos de Criança: “jogo de botões pelas calçadas/ eu era feliz e não sabia”.

Hoje isso é impossível.

Não existe mais terreno baldio onde a garotada dava preferência para suas peladas. Ali ficavam protegidas, pois a pelada não era interrompida para passagem de ciclistas, carroças ou algum raro automóvel.

As coisas eram mais simples.

Na ida à taberna comprar alguma mercadoria para casa, tínhamos que levar nossa sacola de pano onde se agasalhavam os produtos normalmente embrulhados em “papel de açougue”.

Na taberna as mercadorias como açúcar, sal, arroz e feijão, eram guardados em um grande depósito de madeira, com tampa e eram pesadas à vista do freguês numa balança de dois pratos.

Havia figuras românticas que faziam parte do nosso cotidiano, hoje algumas extintas. Quem não se lembra do funileiro, aquele que consertava panelas de alumínio; do amolador de facas, tesouras e outros utensílios domésticos; do carvoeiro que entregava carvão a granel na porta de nossas casas; o leiteiro que entregava leite em casa no vasilhame próprio, um vidro de 1 litro e de boca larga; o sapateiro, o alfaiate, o padeiro.

Na minha velha Belém, lá na Cidade Velha, havia uma figura lendária com o apelido de Ioiô.

Era um vendedor ambulante. Vendia mingau de farinha de tapioca e de milho branco, chamado lá para aquelas bandas de munguzá. Transportava duas enormes panelas em um carrinho de mão. Levava, também, uma lata d’água onde lavava as cuias que servia o mingau.

Passava sempre à noite por volta das 21 horas.

Não me sai da memória sua voz suave e melancólica dentro da noite anunciando:

- VAI PASSANDO O IOIÔ!

As pessoas corriam com suas vasilhas para comprar suas delícias.

Nada disso gerava lixo. O planeta agradecia.

Quanta saudade!

A vida seguia mansamente.

Ninguém tinha pressa.

A herança desses hábitos me parece ter sido assimilada de nossos ancestrais europeus, especialmente dos portugueses.

O tempo passou.

O Brasil deixou de ser um país europeizado.

Ao abdicar dessa maneira sensata de viver, nos entregamos aos desvairo do consumismo praticado pelos estadunidenses.

Hoje é tudo descartável.

As gerações futuras morrerão asfixiadas pelo lixo, principalmente pelo lixo plástico.

Protestando com essa situação e dando vazão ao meu inconformismo, hoje quando compro alguma coisa que posso carregar sem uso da maldita sacola plástica, o faço.

Não me conformo, por exemplo, com os barbeadores descartáveis feitos de plástico.

A fim de fazer minha parte ajudando o planeta, estou me barbeando com meu antigo aparelho que troca somente a lâmina de aço, facilmente absorvida pela natureza.

Convoco as pessoas de bom senso que o façam.

A natureza agradecerá.

Pedro Parente

pedroparentester@gmail.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

MEMÓRIA

Memória, essa nossa companheira inseparável que nos acompanhará na nossa trajetória de vida. As vezes amena, em outras severa, porém, sempre melancólica e triste.

A medida que o tempo passa, nosso arquivo da memória aumenta.

Quando menino, nossa memória não ultrapassa os dez anos, mas na velhice ocorre o contrário. São dezenas e dezenas de anos acumulados cheios de recordações e principalmente de saudades.

Infeliz do homem sem memória.

Pensava Marcel Proust, romancista francês: “ O mundo é a idéia que cada qual tem dele, e, assim a vida tem que ser vivida através da memória, pois só no passado é que se encontra a essência da personalidade. A memória funde a experiência do passado, que não está morto, mas apenas em estado latente, e precisa ser reacordado, unido-se ao presente.” ( Enciclopédia Barsa ).

Pois é.

Concordo plenamente com Proust, e assim é que sempre estou fazendo incursões pelo labirinto da minha memória em busca de respostas no passado para problemas do presente.

É intuitivo sempre buscarmos lembranças alegres, deixando as mais tristes em um arquivo separado num cantinho do inconsciente.

Todos têm uma concepção do fato de envelhecer.

Eu, particularmente, não tenho dúvida, de que o maior tesouro que levamos no decorrer dos anos é a nossa própria memória, que alguns preferem chamar de experiência.

Por esses meandros, voltei até 1959.

Dia de regata na baia de Guajará em Belém do Pará.

Festa.

A baia enfeitada de pequenas embarcações engalanadas, decoradas com bandeiras multicolores.

Nas grandes barcaças vindas do Mississipi, e de propriedade da Port of Pará, impulsionadas por aquelas imensas rodas traseiras, muito conhecidas nos filmes de New Orleans, ali aconteciam grandes bailes durante a realização da regata. Cada clube alugava a sua.

Tudo com muito glamour, com direito ao suave balanço da maré e à brisa vinda do leste.

Não imaginava o que me esperava, naquela manhã festiva.

Minha guarnição de remo, composta de quatro remadores e um timoneiro, correria dois páreos, sendo que num deles o troféu vinha sendo disputado haviam 19 anos. A posse definitiva só aconteceria no caso de três vitórias consecutivas, que era o caso daquela manhã.

Eu estreava na posição de voga, aquele que sob a orientação do timoneiro, comanda o ritmo das remadas. Nossa guarnição estava muito bem preparada. Nosso forte era a remada picada, rápida.

Alinhamos. A baia estava revolta. Foi dada a partida e eu caí num ritmo lento de remada para reservar as forças para o final.

Nosso timoneiro não orientou corretamente, porém quando percebi que não havia mais ninguém atrás de nós, alterei o ritmo.

Já era tarde. Perdemos o páreo. Foi a maior decepção da minha vida no esporte.

No páreo seguinte, com os mesmos concorrentes, ganhamos com sobra.

De um páreo para o outro já estava mais maduro. Havia aprendido a lição que minha memória me ensinou.

O esporte é, sem dúvida, um grande conselheiro. Com ele aprendemos a conviver pacificamente com sucesso e derrota.

Uma parte da minha personalidade e do meu caráter foi fundida com a prática do esporte, que exigindo muito do físico, não abre espaço para outros caminhos que degeneram a juventude, principalmente as drogas.

Pedro Parente

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

tempos pretéritos

Tempos pretéritos.

Hoje resolvi sentar-me na “Pracinha”, como assim é tratada pelos moradores do Largo de São Francisco e rodar na minha memória, meu filme para trás.
Lá pelos idos de 1957 quando aqui vim pela primeira vez, encantei-me com a cidade.
Conto sempre a respeito da minha chegada.
A comissão de recepção não foi da mais acolhedora. Um individuo crédulo, temente a Deus, certamente teria renegado à acolhida e voltado a seu destino.
Fui recebido carinhosamente nada mais nada menos por “João Diabo”, “Judas” e “Demônio”.
Poderia me imaginar no portal do inferno, porém tornaram-se meus grandes amigos: “Judas” – Marco Antonio; “João Diabo” – o João Pedro e “Demônio” – Luis Antonio me acompanharam nesses anos em que aqui estou. Dos três, resta apenas o “Judas”, pois “Meirinho” há mais tempo e “Demônio” recentemente, para minha tristeza, já nos deixaram.
Chegávamos sempre do Rio, de madrugada.
No decorrer do tempo, tornou-se praxe eles nos esperarem na esquina do Kibon onde o bar que fica debaixo da casa do “Titita Besamat” e “Dª Guegué” permanecia aberto sem o menor problema, aliás, quando perguntávamos a ela D[ Gugué, a respeito do barulho vindo do bar, sempre respondia dizendo que se a tirassem dali para qualquer outro lugar, morreria.
Invariavelmente naquela hora da madrugada estavam também, Pedro Salomé, Téo, Eduardo Mafra, Natal, Serginho Raton e mais alguns que a memória me trai.
Ali continuávamos a confraternização até o dia amanhecer.
Após essa “concentração”, íamos nadar e jogar pelada na Cachoeira da Candonga. Lá para as tantas horas, almoçávamos e descansávamos a fim de nos prepararmos para a noite.
Explodíamos de energia e alegria.
Tempos muito felizes.
Ali na “Pracinha” meu filme rodando, até que a lente da câmera dos meus olhos deparou-se com o casarão da Dª. Aura Salomé, sim, pois quando cheguei Dr Matheus já havia falecido.
Tantas recordações daquela casa!
Até hoje representa um monumento à alegria.
Família muito numerosa, por felicidade, tornei-me logo amigo do Pedro e mantínhamos uma profunda empatia. Pessoa carismática, de vasta cultura e, sobretudo, amiga. Sua morte precoce causou-me grande tristeza.
Apresentou-me sua mãe Dª Aura de quem eu adquiri imediatamente a condição de “filho”.
O Pedro era da minha idade, e por isso meu companheiro de boêmia.
Num certo domingo de carnaval quando eu voltava da casa da namorada, aproximadamente às 23h, encontrei-o na esquina do Kibon.
Conversamos um pouco e me convidou para “tomar uma sem exemplo”, isso quer dizer: somente uma bebida.
Sentamo-nos à mesa do bar da esquina administrado por dois irmãos bons de serviço e começamos a prosear. Logo a roda foi crescendo. Joguinho de palitos, canja, pinga e cerveja.
Quando a prosa é boa a sensação é de que o relógio para e o tempo também.
Dessa feita parece que a prosa foi ótima, pois nos levantamos às 15 horas da segunda feira, perfeitamente lúcidos.
Alem da grande prole de Dª Aura, moravam ali no casarão, Dª Carolina e seu filho Arthur.
Arthur era mais velho e participava comigo e o Pedro das noitadas.
Arthur era uma figura singular de censo de humor refinado, não deixava ninguém sério à sua volta. Também já não está mais aqui, certamente está entre os bem aventurados fazendo-os rir.
Mais recentemente, Matheusinho, irmão do Pedro, pregou-me uma peça partindo prematuramente. Como todos da família, uma pessoa de caráter inflexível, amável e grande amigo.
Minha mesa está ficando vazia. Os risos e a alegria deram lugar à melancolia e a solidão. Minha esperança é reencontrá-los.
Aqui sentado olhando o casarão do Largo de São Francisco, meu filme volta aos tempos de Natal, carnaval e Semana Santa.
O movimento ali era intenso.
Tanta gente, principalmente jovem; tanto carinho; tanta felicidade; tanta alegria que parecia que aquele momento era eterno e que a marcha inexorável do tempo não o apagaria jamais.
Um grande engano.
Hoje o casarão do Largo de São Francisco com a porta fechada e seus janelões cerrados é um testemunho mudo daquilo que passou.
No meu devaneio, fitando-o, parece que me reconhece e sorri participando comigo desta viagem no tempo.
Conversando com o Cláudio, o mais novo dos filhos de Dª. Aura e dos últimos remanescentes, falou-me também de sua tristeza a respeito do casarão.
O casarão será sempre um monumento à alegria.

“Una Casa in Cima Al Mondo”.

 

Pedro Parente

pedroparentester@gmail.com







Pino Donaggio - Una Casa In Cima Al Mondo

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dona Celuta

DONA CELUTA.

Quando cheguei a São João del-Rei, vindo do Rio de Janeiro, não havia o tipo de esporte que eu apreciava, remo de competição.
Fui trabalhar em Matosinhos na Fábrica São João.
Lá incentivei os operários a disputar “peladas futebolísticas” entre as diversas seções e para isso começamos a utilizar o campo do Siderúrgica Futebol Clube onde angariei e solidifiquei ótimas amizades.
Na força da minha juventude necessitava descarregar minha energia, própria da idade.
Tive que me adaptar, embora “perna de pau” na gíria do futebol, improvisei um time de final de semana onde eu era o dono da bola por isso mesmo, não poderia ser barrado.
Certo dia o juiz meu amigo Edu, me expulsou de campo. Chamei o “Chico Magro”, substitui o juiz e continuei jogando, numa atitude altamente “democrática”.
Que vergonha!
Lá nos encontrávamos todos os finais de semana, aos sábados à tarde. Após a pelada nos confraternizávamos na casa do meu amigo Nonato e sua esposa Dª Clarisse pais de uma prole de oito filhos ou no Bar do seu Zé de Freitas e Dona Vicentina.
Exímia cozinheira, Dª. Clarisse nos recebia em sua casa com seus famosos bifes enroladinhos, preferidos do Chacal ou um temperadíssimo pernil, este o meu preferido, acompanhados naturalmente, de cervejas geladas e uma boa pinga.
Eram tempos muito felizes.
Só havia um problema. O campo de jogo não tinha alambrado. Assim sendo, acidentalmente, a bola caia no telhado do casebre miserável, onde morava Dona Celuta que todos temiam devido sua reação quando a bola caia no telhado de sua casa, quebrando as telhas e provocando goteiras, ela não devolvia a bola de jogo.
Certa tarde, quando jogávamos, aconteceu esse fato. Mais uma vez e ela reteve a bola.
Alguém exaltado quis ir até lá tomar a bola à força. Não deixei. Ponderei que ela estava com a razão. Antecipei-me e fui até ela.
Era uma senhora negra com as marcas da idade no semblante. Recebeu-me com ar austero e nervoso reclamando ostensivamente daquela situação.
Quebrei a tensão com um sorriso e cordialidade. Pedi-lhe desculpas e prometi que não aconteceria mais.
Convidou-me a entrar. Meu coração ficou apertado de ver tanta pobreza ali, nas nossas barbas.
A “casa” de chão batido e de adobe tinha apenas um cômodo só e um sanitário com uma cortina de plástico para sua privacidade. O telhado mostrava as fendas nas telhas quebradas pelas boladas do futebol. O engradamento era de varas roliças de madeira comum. Não possuía luz elétrica. Apenas um catre onde dormia e que servia de cadeira quando queria sentar-se.
Chamamos nosso pedreiro de plantão – a solidariedade entre os pobres é emocionante, estão sempre disponíveis para prestar ajuda uns aos outros.
Em poucos dias foram reparados os estragos e puxamos um ponto de luz do nosso vestiário para a casa de Dona Celuta.
Levantamos o alambrado de maneira a proteger o casebre.
Tornou-se nossa fã. Sempre se oferecia para prestar pequenos serviços como lavadeira de uniformes e etc...
Passaram-se os dias chegou dezembro e com ele Natal.
Uma manhã de céu limpo eu estava sentado à frente do Posto de Gasolina onde trabalhava, eis que chega Dona Celuta com um embrulho bonito fechado com laço de fita.
- É pro senhor seu Pedro. Muito obrigado.
Não tive palavras, somente lágrimas. Foi minha resposta.
O conteúdo do embrulho uma camisa cara e a mais bela que ganhei.
Guardei-a por muitos anos sem usá-la como o melhor troféu que conquistei, junto com meus amigos, em toda minha vida.
Que belo Natal. Talvez o melhor.
Os momentos de felicidades são tão raros e tão caros.
Não existem jóias baratas.
Vale a pena viver!

17/11/2010
Pedro Parente



domingo, 31 de outubro de 2010

Cara a cara -Nelson Gonçalves

Felizmente temos poeta e menestréis que escrevem e cantam aquilo que não sabemos falar.

Amo esta música. Nota dez para seus autores Lúcio Nascimento e Carlos Colla.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

UM CERTO NATAL

UM CERTO NATAL
Pedro.
Como acontece todo ano, naquele,  decidimos fazer a festa do Natal, na casa do teu tio Marco Antônio.
Era sempre uma festa agradável. Faziam-se as comidas tradicionais, iguarias de todas as espécies, sorteios de “amigo oculto”, troca de presentes, enfim, uma alegria!
Tu levavas vantagem na hora da entrega dos presentes, pois eras o mais novinho.
A turma do Vicente e da Sônia, já era maior e já curtia “outros baratos”.
Possuías um grande prazer em chupar bico.
Nós adultos somos muito professorais, austeros com as crianças; chatos mesmos.
- Esse menino tem que parar de chupar bico. Estraga os dentes. Deforma a personalidade!
Quanto conceito!
Em nenhum momento se imagina o prazer daquele ato. A delícia que é chupar bico.
Pobres crianças, desde cedo terão que fazer tudo aquilo que os adultos impuserem.
Pois bem, articulou-se uma troca com Papai Noel, logo com quem com “O Bom Velhinho”. Receberias dele uma bicicleta, mas abdicaras do teu prazer de chupar bico.
Que maldade!
Na hora marcada, naquela noite de Natal, o “Bom Velhinho” chegou trazendo consigo aquela reluzente bicicleta.
Teus olhos faiscaram de alegria.
- É toda tua, porém terás que me dar teu bico em troca e prometeres nunca mais voltar a chupar!
Numa atitude decidida e firme, entregaste o bico e recebeste a bicicleta.
Eu te observava atentamente.
Meu coração apertou e meus olhos ficaram marejados.
Mudo estava, mudo fiquei, com meu sorriso pateta na face.
Meu filho estava contabilizando sua primeira perda. Tomando a primeira lição.
Para alcançar a bicicleta teria que preterir a companhia inseparável, por todos esses anos de vida, de seu bico.
Sim, aquela coisa antiestética e repugnante que nós adultos condenamos e que as crianças amam.
Naquele momento de festa sua atenção toda era para a bicicleta. E na hora de deitar com seu companheiro? Aquele que o ajudava a ninar e contar carneirinhos? Que teria sido feito dele? Onde estaria? Teria sido jogado fora em uma lata de lixo? Estaria sentindo frio, sozinho, naquela noite de Natal? Não teria ninguém para chupá-lo? Estaria se lembrando de mim? Da maldade que lhe fiz?
Maldita bicicleta, me tiraste meu melhor amigo. Meu bom companheiro de todas as horas. Principalmente à noite assistindo televisão.
Essa maldita bicicleta terá que ter espaço para eu brincar com ela.
Dia de chuva, não pode. Dentro de casa, não pode. Na escola, não pode.
Parece que cometi uma traição e na troca da nova amiga pelo velho companheiro, fui injusto e levei “manta”.
Eu, teu pai, assisti a tudo calado e apreensivo. Queria ver o desfecho.
Aquele propósito teria sido momentâneo? Tu voltarias atrás no dia seguinte?
Para mim, aquela noite de Natal não foi igual às outras. Fiquei cismático.
Para minha surpresa: tu nunca mais falaste em bico.
Uma prova insofismável da tua personalidade e do teu caráter.
Bravo! Filho.
Obrigado.
Teu pai.

27/10/2010
Pedro Parente





FILHO

São João del-Rei, 18 de junho de 1997.

Meu filho.

Ao sentir aproximar-se o final da minha jornada, gostaria de deixar consignadas, algumas considerações úteis na tua caminhada que se inicia.
Peço-te perdão pela ousadia de te colocar no mundo sem ouvir tua opinião.
Assumo metade da culpa.
Pela tua herança genética, certamente lidarás com muitos defeitos e algumas virtudes de teu pai.
O dia em que nascestes foi um dia de grande alegria e profunda reflexão.
Ser teu pai com a idade já avançada seria irresponsabilidade ou desafio?...
Talvez certo egoísmo.
Usufruir do teu sorriso inocente, do teu terno abraço, da tua pequenez angelical.
Vieste preencher minha vida.
Gostaria de te falar muitas coisas que nossa diferença de idade não permite.
Um momento só e uma folha de papel não bastam.
Gostaria de caminhar a teu lado, às vezes contigo no colo, sangrar com prazer, pisando nos espinhos que por ventura a vida te reserve.
Faz da vida, uma trajetória de sorrisos.
Deixa que as pessoas te procurem pela tua alegria e não te evitem pelas tuas tristezas.
Nunca sejas subserviente.
Caminha de cabeça em pé.
Não aceita humilhação e nem abdica do teu direito.
Protege tua mãe.
Não deixa que a façam infeliz.
Ela enfrentou a maledicência de uma sociedade vil e austera para te ter.
Se a indagares se valeu a pena?
Certamente não hesitará em te abraçar e sem palavras, sentirás suas lágrimas umedecerem teu ombro.
Se puderes ter dinheiro, será bom, porém se faltar não te maldiga, ele é o grande culpado das mazelas do mundo; em pessoas fracas acaba por eliminar aquilo que o ser humano tem de mais admirável que é a dignidade.
Respeita os idosos.
Quando por eles passares, reverencia-os.
Ali vão anos de experiência vencidos pelo tempo.
Quando fores senil, lembrarás do que hoje te falo.
Somente aí, nessa época, entenderás.

Ti amo.

Teu pai.

Pedro Parente

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O SEPTUAGENÁRIO

O SEPTUAGENÁRIO

Parece que foi ontem que escrevi uma crônica com o título “O Sexagenário” referindo-me a idade que tinha aquela época.

Para minha surpresa, hoje, após dez anos, escrevo O Septuagenário.

Muitas mudanças.

No entardecer da vida as perdas são freqüentes.

Muitos amigos vão tombando nessa luta desenfreada pela sobrevivência.

Cada perda uma ferida, com o tempo uma cicatriz, porém aquela marca não desaparecerá e nosso coração se transforma num imenso cemitério de recordações.

Saudade do que passou.

Meu filho a quem, de mãos dadas, ensinava os caminhos mais suaves pelas trilhas tortuosas da vida, hoje rapaz, me ensina suas modernidades e com ele aprendo seu novo palavreado.

Fiquei velho.

As dores físicas vão travando uma intensa luta com as dores morais do meu consciente.

A artrose me corroendo os joelhos e minha mente reflexiva vai me interrogando se errei muito. Se fui injusto? Se ofendi alguém?

Essas reflexões me levam a crer que se prejudiquei alguém, foi involuntariamente e peço perdão. Jamais o faria premeditadamente.

Os amores? Ah! Os amores!

Velhos amores, velhas recordações.

O viço cedeu lugar ao torpor, ao desalento e aos poucos vamos ingressando no exército dos invisíveis. Não somos mais notados. Ninguém nos vê e o que mais machuca é a indiferença de quem um dia nos amou e trilhou caminhos difíceis ao nosso lado.

Com razão 70 anos não são 70 dias.

Daquela imagem jovem e vigorosa, restou apenas um espectro claudicante e cabisbaixo.

Dessa caminhada inglória rumo à sepultura, resta um tesouro conquistado passo a passo, copo a copo, gota a gota: os amigos.

Por eles valeu a angústia de envelhecer.

É prazeroso tê-los sempre em meus pensamentos e se possível à minha ilharga.

Hoje nos confraternizaremos pela passagem dos aniversariantes do mês de outubro, uma tradição da Turma do Buneko e me parece um recorde, pois já ultrapassam 80 reuniões com essa finalidade.

Lá estaremos todos alegres e felizes esquecendo por momentos nossas tristezas e abrindo espaço para um efêmero entusiasmo jovial, exarcebando naquilo que nos resta: os prazeres da boca.

Nesse imenso algodoal de têmporas encanecidas, não haverá espaço para tristeza.

Amanhã estaremos um dia mais velhos.

Disse-me meu amigo José Norberto: “Para não envelhecer, basta morrer novo”.

Vida que segue!

Pedro Parente.