quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ENTERRO DA FRANCISQUINHA

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Naqueles tempos, havia no interior das Gerais, um fazendeiro austero que vivia para a família e por isso mesmo tornou-se um exemplo de pessoa. Isto levou-o a batizar um sem número de crianças.
Uma dessas crianças, uma menina, ficou órfã sem ter quem lhe assistisse.
Seu Honório acolheu-a como filha aumentando mais uma em sua pródiga prole.
Francisquinha, como era chamada, tornou-se uma aluna muito dedicada às letras tendo obtido grande progresso e formando-se precocemente na escola onde cursava seu ensino médio.
Não tendo mais degraus para galgar nos estudos naquele lugar, decidiu migrar para uma cidade maior.
Formou-se em odontóloga de grande sucesso.
Um dia porém adquiriu uma moléstia que tirou-lhe a vida.
Seu Honório ficou sabendo e muito triste, pediu ao filho que o levasse ao cemitério na hora do funeral.
Naquela tarde, quando deu pela coisa, já estava atrasado.
Chamou o filho e montaram numa valha camionete da família.
Pé na tábua!
Desceu com o filho no cemitério, ambos espavoridos, fizeram parar um caixão que se encaminhava para o sepultamento, carregado pelos familiares do de cujus.
Pediu que parassem pois desejava ver a Francisquinha pela última vez.
Todos solícitos e obsequiosos atenderam prontamente.
Quando destamparam a urna, uma surpresa!
Seu Honório com a mão no queixo exclamou baixinho no ouvido do seu filho:
- Francisquinha de bigode?
Um pequeno engano, o enterro era de uma pessoa do sexo masculino.
Chegaram atrasados.
Pedro Parente
26/10/17


·
  • segunda-feira, 23 de outubro de 2017

    A VIDA COMO ELA É

    A VIDA COMO ELA É - Tenho um bom amigo chamado Júlio de ótima voz, seresteiro dos bons. Ganhou a vida como taxista em Belo Horizonte. Frequentemente viajava levando passageiros até Brasília.
    Numa dessas viagens, passou na casa de seus parentes e lá encontrou uma tia desesperada tendo uma criança de oito anos no colo portadora de um sério problema em um dos olhos.Já havia feito de tudo e a doença não regredia.
    Julinho com toda sua experiência e por absoluta coincidência, levava no porta luvas do seu carro, uma pomada oftálmica muito poderosa.
    Não hesitou em doar a pomada aquela pessoa necessitada e seguiu em frente.
    Perdeu o contato com o aquele povo.
    O ocorrido foi em 1984.
    Em março de 1992 Julinho recebeu uma singela carta daquele menino agora com 26 anos agradecendo a generosidade e que aquele medicamento havia lhe salvo a vista.
    A vida nos da sinais que muitas vezes não percebemos.
    Aquela criança teria que receber uma visita inesperada e por coincidência portando o milagroso medicamento?
    Sempre me emociono quando lembro do fato.
    Tenho a carta para o Júlio e hoje, remexendo em meus alfarrábios encontrei-a e resolvi dividir minha alegria de um pequeno gesto com vocês.
    13/10/17
    Pedro Parente

    quinta-feira, 12 de outubro de 2017

    INCRÍVEL

    INCRÍVEL - Estando aposentado e procurando algo para matar o tempo, ontem dei asas ao ócio ligando a televisão na TV JUSTIÇA. Estava sendo julgado um simples rito processual, coisa corriqueira, que no boteco se resolveria em minutos. No caso aquela sessão durou treze horas.
    Assisti ali um desfile de vaidades a começar pelo palavrório sofisticado e prolixo.
    Hermenêutica, semântica, exegese eram palavras corriqueiras naqueles senhores empertigados como arautos da Lei e da ética.
    Suas fantasias de morcego devem ser de tecidos da melhor qualidade confeccionada pelo alfaiate do rei, num preço que o salário de um trabalhador não compra um pedaço sequer.
    Um deles com uma cabeleira bizarra esforçava-se na eloquência; outro é gêmeo de um comediante, empresário e feitor de jagunços na sua terra natal; a presidente ao invés de avião, deveria usar uma vassoura para se locomover; outro, ex-advogado do PCC; outro, morador da casa do Cacciola. Enfim, a "Escolinha do Professor Raimundo" do inesquecível Chico Anysio era mais autêntica e sincera.
    Isso tudo a um custo absurdo. Honorários de 11 ministros, técnicos, auxiliares e toda aquela parafernália do teatro mambembe sendo pago pelos contribuintes.
    Para votar SIM ou NÃO cada um gasta inúmeras laudas de papel e as lêem caprichando na impostação da voz.
    Nessa perda perdulária de tempo, inúmeros processos são arquivados por decurso de prazo, isto é, por falta de julgamento prejudicando as partes litigantes.
    O que mais me causou surpresa é que em momento algum falou-se do crime e do criminoso. É irrelevante!
    "QUOUSQUE TANDEM CATILINA ABULTERE PATIENTIA NOSTRA!"
    Pedro Parente
    12/10/17

    segunda-feira, 9 de outubro de 2017

    CURIOSIDADE

    30 min ·
    O Brasil possui um general para cada 1.258 militares. O número supera até mesmo os exércitos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, as três forças mais empregadas hoje em conflitos armados em todo planeta.
    De acordo com o jornal O Globo, com base em pedido de informações ao Centro de Comunicação Social do Exército Brasileiro (Cecomsex), os generais brasileiros, que ganham soldo quase treze vezes superior ao de um soldado, são 151 para um efetivo de 190 mil militares.
    Os EUA tem 352 generais e uma tropa de 500 mil homens e mulheres na ativa. Na média, um general dos EUA representa 1.420 militares de patentes mais baixas, desde soldados até coronéis.
    "O Exército Brasileiro possui atribuições legais ligadas ao desenvolvimento econômico, social e tecnológico do país que demandam a constituição de estruturas cujos efetivos de oficiais-generais é considerável", diz o Ministério da Defesa em documento enviado a O Globo. Segundo o ministério, a comparação feita com os outros países "não é a mais adequada", informa o jornal.
    Como disse o presidente francês Charles de Gaulle: "Le Brésil n’est pas um pays sérieux" (O Brasil não é um país sério)

    REMINISCÊNCIA

    REMINISCÊNCIA - Todas as manhãs, acordo com uma música na cabeça. Hoje me bateu muita saudade.
    Quando morava no Rio de Janeiro, durante os "Anos Dourados", tive a alegria de conhecer e tornar-me amigo de Adamastor Falcone (Tatô) e Thompson Carneiro da Cunha. Tatô, funcionário público graduado e Thompson também, do Banco do Brasil. Ambos boêmios de alta qualidade. Juntei-me a eles e fizemos grandes farras.
    Os dois eram exímios tocadores de violão e Tatô possuía uma voz maravilhosa. Paraibanos de nascimento. Tatô, primo do Diomedes, Tidinho e da Neuzinha sãojoanenses filhos do Dr Garcia de Lima.
    Os dois tinham em comum muito talento musical e compuseram uma linda melodia. Vários intérpretes tentaram gravar como Nelson Gonçalves, Silvio Caldas e etc... porém o não permitiram por pura modéstia. Diziam que a música era para momentos deles.
    Naquela época dava-se ênfase à melodia e também a letra das composições.
    A suavidade das canções massageava nossos corações. Verdadeiros poemas. Não feriam nossos ouvidos.
    Como registro deixo aqui a poesia da letra.

    Serpentina multicor/ Que enfeitastes o salão/ E agora pelo chão/ Vais rolando esquecida/ Tu me lembras meu amor/ Que andou de mão em mão/ E não tendo coração/ Não sentiu passar a vida///
    Oh! você que hoje passa/ Esbanjando amor e graça/ Nesta sua ânsia louca/ Colibri que anda voando/ Seu amor banqueteando/ Dá seu beijo a toda boca/ Veja bem que o tempo voa/ Que esta fase boa/ Vai chegando ao seu final/ Minha linda colombina/ Olha aquela serpentina/ Teu fim será igual.
    Pedro Parente
    09/10/1

    INFLAÇÃO DE GENERAIS

    O Brasil possui um general para cada 1.258 militares. O número supera até mesmo os exércitos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, as três forças mais empregadas hoje em conflitos armados em todo planeta.
    De acordo com o jornal O Globo, com base em pedido de informações ao Centro de Comunicação Social do Exército Brasileiro (Cecomsex), os generais brasileiros, que ganham soldo quase treze vezes superior ao de um soldado, são 151 para um efetivo de 190 mil militares.
    Os EUA tem 352 generais e uma tropa de 500 mil homens e mulheres na ativa. Na média, um general dos EUA representa 1.420 militares de patentes mais baixas, desde soldados até coronéis.
    "O Exército Brasileiro possui atribuições legais ligadas ao desenvolvimento econômico, social e tecnológico do país que demandam a constituição de estruturas cujos efetivos de oficiais-generais é considerável", diz o Ministério da Defesa em documento enviado a O Globo. Segundo o ministério, a comparação feita com os outros países "não é a mais adequada", informa o jornal.
    Como disse o presidente francês Charles de Gaulle: "Le Brésil n’est pas um pays sérieux" (O Brasil não é um país sério)
    REMINISCÊNCIA - Todas as manhãs, acordo com uma música na cabeça. Hoje me bateu muita saudade.
    Quando morava no Rio de Janeiro, durante os "Anos Dourados", tive a alegria de conhecer e tornar-me amigo de Adamastor Falcone (Tatô) e Thompson Carneiro da Cunha. Tatô, funcionário público graduado e Thompson também, do Banco do Brasil. Ambos boêmios de alta qualidade. Juntei-me a eles e fizemos grandes farras.
    Os dois eram exímios tocadores de violão e Tatô possuía uma voz maravilhosa. Paraibanos de nascimento. Tatô, primo do Diomedes, Tidinho e da Neuzinha sãojoanenses filhos do Dr Garcia de Lima.
    Os dois tinham em comum muito talento musical e compuseram uma linda melodia. Vários intérpretes tentaram gravar como Nelson Gonçalves, Silvio Caldas e etc... porém o não permitiram por pura modéstia. Diziam que a música era para momentos deles.
    Naquela época dava-se ênfase à melodia e também a letra das composições.
    A suavidade das canções massageava nossos corações. Verdadeiros poemas. Não feriam nossos ouvidos.
    Como registro deixo aqui a poesia da letra.

    Serpentina multicor/ Que enfeitastes o salão/ E agora pelo chão/ Vais rolando esquecida/ Tu me lembras meu amor/ Que andou de mão em mão/ E não tendo coração/ Não sentiu passar a vida///
    Oh! você que hoje passa/ Esbanjando amor e graça/ Nesta sua ânsia louca/ Colibri que anda voando/ Seu amor banqueteando/ Dá seu beijo a toda boca/ Veja bem que o tempo voa/ Que esta fase boa/ Vai chegando ao seu final/ Minha linda colombina/ Olha aquela serpentina/ Teu fim será igual.
    Pedro Parente
    09/10/1

    sexta-feira, 29 de setembro de 2017

    ALVARO LOPES



    ALVARO LOPES

    Prosseguindo o caminho de quem envelhece, vou perdendo lentamente meus parentes e amigos mais queridos deixando marcas e cicatrizes no meu já cansado coração.
    Há dias, encerrando sua missão aqui na Terra, nos deixou meu bom amigo Álvaro Lopes de tantas boas lembranças. Desde 1967 desfrutei de sua amizade, inclusive pelo Rio de Janeiro onde eu morava e ele cursava a Faculdade de Direito.
    Inteligência acima da média e raciocínio rápido vencia todos os torneios de jogo de dama e xadrez que participasse. Tinha grande intimidade com o tabuleiro quadriculado.
    Desapegado com coisas materiais, possuía um fusca que todos conheciam, pois estava sempre com os vidros abertos e a tranca não tinha a menor utilidade. Invariavelmente a chave ficava introduzida no contacto.
    Do Álvaro guardo como lembrança a história mais engraçada que ouvi na esquina do Kibon e que não me canso de contar.
    Disse-me, que numa manhã de segunda feira em São Paulo, onde estava morando, acordou com uma grande ressaca moral e também, com muita saudade de São João. Pensou:
    - Vou até o Banco de Crédito Real e talvez encontre alguém de lá da “terrinha” que me traga notícias frescas.
    E assim fez.
    Chegou ao Banco e foi logo examinando as caras daqueles que esperavam por atendimento nas grandes filas.
    Eis que se deparou com uma cara conhecida e pensou com seus botões:
    - Eu sabia que encontraria alguém de São João!
    Aproximou-se daquele cidadão, cumprimentou-o dizendo:
    - E aí? Como vai nossa terra?
    - Qual terra? Respondeu intrigado o interrogado.
    - Ora! São João del-Rei!
    - Não. Não conheço São João del-Rei. Nunca estive lá.
    - Como não? E de onde é que te conheço então?
    - Que é isso Álvaro? Não lembra? Sou seu companheiro de quarto na república do Largo do Arouche.
    Álvaro desconversou, saiu de fininho e foi curtir sua saudade no bar da esquina.
    Dos amigos prefiro guardar as lembranças mais alegres dos tempos felizes que convivemos.
    O resto fica por conta do tempo, o mestre do mundo que ameniza nossas tristezas e não deixa que vivamos num vale de lágrimas.
    Pedro Parente
    pedroparentester@gmail.com

    ANGÚSTIA



    ANGÚSTIA

    - Vem logo, pai!
    Acelerei o mais que pude.
    Estranhei aquele apelo do meu filho de apenas 16 anos, via telefone móvel, ao sair de um show às 2,30 h.
    Percebi que sua voz não estava normal. Às pressas cheguei ao local combinado.
    Nunca mais sairá da minha memória aquela cena: meu filho embriagado, apoiado por seu companheiro de infância que estava perfeitamente sóbrio.
    Não sabia o que fazer. Perdi o chão.
    Ao longo da minha vida me deparei com situações inusitadas, constrangedoras e embaraçosas. Delas me livrei com tranqüilidade. Agora estava eu ali, atônito.
    Que fazer? Não sei.
    Sentei-o a meu lado, abri o vidro do carro para que recebesse a fresca da madrugada. Com uma das mãos ao volante do carro e a outra apoiando sua cabeça enquanto regurgitava para fora do veículo, andando lentamente fui tentando concatenar minhas idéias e acalmar minha fúria instintiva de castigá-lo severamente.
    Não. A prudência recomenda que não. Esperaria o efeito do dia seguinte.
    O carro deslizava suavemente pelo asfalto, enquanto as luzes amarelas da rua pareciam sóis esmaecidos a me queimarem por dentro.
    Sua imagem lívida me impôs uma dúvida: para casa ou para o hospital?
    Reportei-me à minha juventude quando o mesmo aconteceu comigo e optei por levá-lo para casa.
    Sua mãe o acolheu como é próprio delas, com carinho e com perdão.
    Dormiram abraçados envolvidos pelo manto do amor fraterno.
    Uma noite terrível. Não esquecerei nunca.
    O efeito no dia anterior foi didático, entre lágrimas, arrependeu-se e pediu desculpa.
    Um sintoma de quem tem bom caráter.
    Que a sorte o proteja!
    Pedro Parente

    quarta-feira, 13 de setembro de 2017

    A VOLTA

    A VOLTA 2
    Após a cansativa viagem de ônibus, chegamos a Belém, eu e Mário Wilson.
    Aí sim! A história é outra!
    Desfrutamos das delícias do lugar.
    Culinária da melhor espécie de exotismo peculiar. Maniçoba, pato no tucupi, tacacá, peixe de todos os tipos e de todas as formas, porém que mais nos fascinava eram os "banhos nos igarapés". Pequenos rios de águas geladas, contrastando com o calor tropical.
    Indescritível!
    Uma birosca à margem na sombra da frondosa floresta com cervejas geladíssimas, peixe fresco frito com farofa e vinagrete.
    A tradição é que as mocinhas nativas ou não, vão se banhar apenas cobertas com uma blusinha normalmente de malha branca. No primeiro mergulho a transparência é total, expondo os contornos femininos daquelas obras de arte.
    Nem o Kama Sutra conseguiu descrever.
    A sensação é maravilhosa! O Nirvana é pouco.
    De volta à realidade, tínhamos que voltar trazendo o heroico fusca.
    Partimos. Desta vez, a disputa era quem dirigia, um paliativo para a monotonia da estrada que era só floresta e chão. Para piorar, nenhuma curva. Uma reta só.
    Ao cair da noite, a sombra da floresta que ainda estava ali ao lado, já começava a fazer sombra na rodovia. Foi aí que furou um pneu.
    Nós, com medo, pois já estava escuro. Nos apressamos para fazer a troca e assim o fizemos.
    A disputa pela direção do carro, nos distraiu e o Mário passou sobre uma pedra, furando novamente o pneu.
    Já noite.
    O pânico nessas horas é uma péssima companhia.
    Dois pneus furados e nenhuma perspectiva. Somente escuridão.
    Revólver em punho. Nos afastamos do carro e escondemos no mato.
    Passado um tempo, apareceu uma luzinha muito longe.
    Demorou muito até chegar em nós.
    Era uma Patrol motoniveladora dando acabamento na estrada.
    O patrolista informou que dali até onde ele ia virar demoraria uma hora, mas tinha um borracheiro que morava lá.
    Subimos os dois. Largamos o carro pra lá. Levamos um pneu. A poeira vinha toda na nossa cara. A máquina não tinha cabine confortável como as de hoje.
    Depois de muita demora, chegamos no borracheiro que já dormia. Muito solícito fez o serviço.
    Para sorte nossa, parou uma Rural Willys com problema de pneu furado.
    O motorista um homem chapeludo de revólver na cintura, se condoeu de nossa situação e nos levou até o fusca.
    Iluminou até trocarmos o pneu e nos avisou que demos sorte, pois aquele lugar era muito perigoso.
    Dormimos dentro do fusca na porta da casa do borracheiro.
    De madrugada seguimos em frente, pois ainda estávamos no Estado de Goiás.
    "Com Deus adiante, paz no guia. Jesus Cristo e Maria são a nossa companhia."
    Pedro Parente
    13/09/17

    quarta-feira, 6 de setembro de 2017

    A VOLTA


    A VOLTA - Após um mês em Belém com o heroico fusca que conseguiu vencer a Belém/Brasília de terra, tinha que voltar para meu modesto trabalho no cais do porto no Rio de Janeiro.
    Pensei bastante na viagem por terra e decidi, com ajuda de meu pai, voltar de avião.
    Deixei o carrinho com meu irmão mais velho para buscá-lo na próxima férias.
    Assim foi.
    Um ano passa rápido e eis que chegou a almejada férias e, finalmente, poderia ir buscar meu fusquinha.
    Desta vez meu companheiro foi o Mário Wilson. Amigo dos bons, aventureiro irresponsável igual a mim, porém tinha um detalhe, ele era habilitado a dirigir automóveis.
    Teríamos que ir de ônibus, pois a grana era muito curta e ainda tínhamos a volta.
    Pegamos um ônibus para Brasília. Lá, no dia seguinte, fomos para a Rodoviária pegar o ônibus que iria para Belém.
    Enquanto esperávamos pelo coletivo, aproximou-se de mim um cidadão negro com uma carteira de identidade na mão onde lia-se de longe a palavra POLÍCIA.
    Dirigiu-se a mim e pediu que abrisse minha mala.
    Meu mundo despencou, pois carregava lá dentro, em cima das roupas, meu revólver SW 32.
    A minha maleta e a do Mário Wilson estavam uma ao lado da outra. Numa atitude de puro reflexo, passei a mão na alça da maleta do Mário Wilson e me retirei como se procurasse algo para colocar a maleta em cima e abri-la em seguida.
    O Mário percebeu e sumiu no meio do povo com a minha mala.
    Achei um banco. Ali mesmo abri a mala e o o policial verificou que estava tudo certo.
    Passado o susto pegamos nosso ônibus. Por acaso nesse dia eram dois devido o transporte da delegação masculina de vôlei do Pará que voltava da disputa de um torneio.
    Os dois ônibus lotados. Sem ar condicionado o que refrescava eram as janelas abertas. Entrava o vento acompanhado de uma poeira infernal.
    Em determinado momento, o ônibus parou e um cidadão suplicou para que o motorista o levasse pra ver a mãezinha dele.
    A turma toda deu força. Ele entrou com a malinha, colocou no fim do corredor e se tornou a maior distração nossa com suas histórias engraçadíssimas.
    Viagem que segue!
    Os dois ônibus em comboio.
    Ao cair da noite, parámos num povoado. Ali deveríamos pernoitar e seguir no dia seguinte, pois o trecho era muito perigoso.
    Reunimos os passageiros e fizemos um trato.
    Os solteiros destemidos passaram todos para um ônibus só. O dinheiro que pagaríamos pelo pernoite oferecemos aos dois motoristas para que tocassem o ônibus a noite inteira.
    Toparam na hora. Aí, sentaram a bota!
    Coisa de rapaziada irresponsável é assim mesmo! A água foi acabando, a fome chegando e ninguém tinha se prevenido. Aquele era o trecho mais deserto.
    As horas passando, não se via um resquício de civilização. Nem uma luzinha, nada.
    Nessas horas, cada um tem uma reação. Uns de mal humor, outros choramingando, outros rezando e o pau quebrando.
    De repente, uma luzinha.
    Paramos. Era um casebre com uma vendinha na frente.
    - Moço! Que tem aí pra comer?
    - Tem nada não. Tô fechando!
    - Isso o senhor não vai fazer não! Tâmo com fome!
    Conclusão. O homem matou trees galinhas. Fez com um caldo grosso e encheu de farinha.
    Que delícia.
    Pagamos tudo, aí o moço falou:
    - Ocês tão doido? Os índios tão atacando aí na Ladeira do Sabão!
    Era uma ladeira sinuosa que servia de apoio para a construção da rodovia principal.
    Vários acidentes. Os caminhões que ali caiam, nem as cargas não recuperavam.
    Naquele ponto, os motoristas avisaram:
    - Vou subir com a porta aberta. Se não der, vocês pulam!
    O ônibus era um Alfa Romeu bastante judiado. A turma falava "Sobe chorando e desce rezando'.
    Na subida não tinha força, na descida não tinha freio.
    Aqui em baixo, o motorista afundou o pé no acelerador e deu tudo o que tinha de impulso.
    Começou a subir, foi reduzindo até chegar na primeira marcha.
    O bicho pegou!
    A turma se amontoou na porta aberta e só se ouvia nome de Santo! A escuridão era total!
    E foi! O Alfa gemendo. Parecia que não era um gemido e sim um derradeiro suspiro!
    Até que chegou no topo e o motorista pode engrenar a segunda marcha começando a descer.
    Parecia que tínhamos ganho a copa do mundo de tanta alegria.
    Rezas, beijos e abraços chegamos sãos a Belém.
    Ufa!
    Pedro Parente
    5/9/17

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    quarta-feira, 9 de agosto de 2017

    AVENTURA

    Lá por volta de 1968, trabalhava no cais do Rio. Resolvi comprar a prestação, um fusca 64 com bateria de 6 volts e ir à Belém visitar minha família. Tinha um porém: a rodovia Belém-Brasília só tinha asfalto no início, até a cidade de Ceres. Quase 2.000km de terra.
    Combinei com o Rubinho meu conterrâneo na mesma situação que a minha, muita saudade mas os bolsos vazios.
    Às seis da manhã de um certo domingo, saímos rumo a Belém. O Rubinho não dirigia, mas prestava uma atenção enorme. Não largava um suporte que apelidaram de pqp e não tirava os olhos da estrada.
    Rodamos o dia inteiro até chegarmos a Brasília. Já de noite.
    Pegamos  um quartinho num hotel de beira de estrada, os famosos "cama-quente"; quando uma pessoa deita, ainda sente o calor daquela que levantou-se. O travesseiro guarda a marca da cabeça do ocupante anterior. Tomamos umas e outras, comemos um prato feito e deitamos.
    De madrugada, ao amanhecer do dia, levantamos e partimos para Anápolis. De lá começa a Belém-Brasília. Dois mil e alguns quilômetros.
    Postos de gasolina, ainda eram raros. Levávamos um galão cheio, no banco de trás.
    Uma mão na direção, outra na alavanca de câmbio pra não soltar as marchas devido as "costelas" da estrada de chão. Cigarro no canto da boca e pé atolado no acelerador. A estrada larga recém aberta, era só reta. Não tinha nenhuma curva para quebrar a monotonia.
    Com a vibração, a primeira coisa que caiu foram os faróis de milha. Daí por diante, foi um tal de cair sem fim. Faróis, faroletes, para-choques tudo foi caindo. Juntávamos e colocávamos dentro do carro.
    Lá pelo meio do Estado de Goiás que ainda não era repartido, o carro parou. Nem levantar o capô do motor levantei, pois não entendia nada de carro. O trânsito era muito pouco. Raros se atreviam a enfrentar àquele ermo. Até que um caminhão cegonheiro apareceu. De dentro da boleia o motorista diagnosticou:
    - Foi o cabo da bobina que partiu!
    Já desceu com uma faquinha na mão, raspou o fio, emendou e acionou o motor.
    Bendita alma.
    Muita coisa aconteceu, mas isso é outro capítulo.
    Finalmente chegamos a Belém.
    Inclusive sem cano de descarga, fazia um barulho ensurdecedor a ponto do guarda de trânsito querer nos multar e ainda me xingou de“porco”, pois o carro e nós dois, éramos pura poeira.
    Isso era uma quinta feira bendita.

    Pudemos tomar banho, botar roupa limpa, jantar e usufruir do colo da mamãe.

    terça-feira, 8 de agosto de 2017

    SINECURA


    Naqueles tempos - Ah! Quanta saudade! Eu trabalhava na Pça da Bandeira no Rio de antigamente. O romantismo impregnava o Rio de Janeiro. A cada rosto feminino na rua, o coração disparava com a possibilidade de uma nova conquista. Coisas de jovem recém saído da adolescência. Ainda podia sentir-se o cheiro da feijoada de domingo na casa das "Tias" logo adiante, no bairro da Gambôa onde a moçada reunia no fundo do quintal para uma boa roda de samba.
    Todas as manhãs passava por um casarão alugado pela Prefeitura que ali ocupava uma de suas repartições.
    Numa das janelas baixas que dava para a rua, sentado à uma pequena mesa e uma maquina de datilografia estava o exímio virtuose do violão Dilermando Reis fazendo jus ao seu salário de funcionário público.
    Ficava sem saber. Meu ídolo e de milhões de brasileiros, ali modestamente fazendo uma "intera" de salário.
    Isso foi antigamente! Outros tempos!

    sexta-feira, 14 de julho de 2017

    MÁRIO DI TREVOR

    MÁRIO DI TREVOR

    Ontem recebi uma triste notícia. Meu amigo Mario di Trevor faleceu. Grande amigo, passou por aqui na década de 80. Exímio tocador de violão, tendo participado de concursos internacionais, possuidor de excelente voz que lembrava Orlando Silva boêmio dos bons. Imediatamente passou a fazer parte da nossa turma.
    Para levantar uns trocados, claro, passou a exibir seu talento em botequins que ele próprio montava.
    A plateia fiel, não decepcionava e todas as noites lotava o bar onde ele estivesse.
    Numa dessas noites, o bar estava funcionando no casarão dos Viegas ao lado da Matriz com aluguel intermediado pelo João Luiz.
    O bar era na frente de uma construção antiga remanescente dos tempos coloniais.
    Com o dinheiro curto, a energia elétrica usada com parcimônia na parte ativa. Os fundos, um breu.
    Naquela noite, Mário se preparava para dar seu show, um verdadeiro concerto.
    Tinha um porém, ele só tocava se fosse feito silêncio profundo. Era capaz de se ouvir a respiração do amigo ao lado.
    Mário pegou o violão solenemente, colocou um dos pés sobre um caixote e quando ia dar seu primeiro acorde, surgem correndo, espavoridas, duas ratazanas enormes vindas do fundo do casarão.
    Quando elas depararam com o Mário. Pararam e se entreolharam sem entender nada.
    Mário com sua fleugma, dedo em riste, mandou:
    - Já pra dentro!
    No que foi obedecido imediatamente.
    As gargalhadas explodiram e detonaram o silêncio circunspecto.
    Saudoso Mário. Descansa em paz.
    Às suas filhas Janaína e Lorena meus profundos sentimentos.
    Pedro Parente
    14/01/2017